Edu Valverde

Segunda-feira

Bob´s



Vi na TV uma propaganda do Bob´s com uma nova promoção. Ao comprar um Ovomaltine eles cobram a metade do preço do sanduíche.

Fui até o Bob´s do Rio Sul sozinho experimentar. Ao chegar lá, encontro uma fila gigante. Depois de quinze minutos, logo quando chega a minha vez:

- Acabou o Ovomaltine.

Tudo bem. Estou paciente hoje. O Flamengo ganhou, ontem dei cinco e o chefe me elogiou. Vou para outro Bob´s. Nada vai me impedir de experimentar a promoção hoje.

Chego no Bob´s de Copacabana. Ao tentar estacionar o carro, acabo arranhando ele numa Kombi de merda que estava parada em frente à farmácia. E é claro que tinha que ser uma Kombi azul, só pra deixar meu carro branco todo arranhado!

De cada trinta Kombis, uma é azul. Eu mereço.

Um pouco menos paciente, afinal odeio quando acontece algo com meu carro, vou para outra fila gigante. Depois de dez minutos sou atendido por um menino com Síndrome de Down em treinamento.

Maldito Programa de Assistência ao Portador de Deficiências!

Eu fico pedindo a porra da promoção e o mongol não entende. Vira a gerente (que é tia do lentinho) e pede:

- Por favor o senhor tenha um pouco de paciência pois é o primeiro dia dele!

Minha paciência, que já estava derretendo como uma pedra de gelo dentro de um carro estacionado na praia, vira fumaça quando eu olho para a fila do lado e vejo gente que chegou quinze minutos depois de mim sendo atendida e levando o lanche embora!

Enquanto todos os funcionários da loja se divertiam com as trapalhadas do “Tonico” no caixa, eu era o palhaço que esperava ele se entender com o painel de pedidos. Toda vez que mandavam ele apertar o botão de “double cheeseburguer” ele apertava o botão de Coca-Cola. Cismou com o botão de Coca-Cola o filho da puta. A gerente cancelava o pedido e com toda a paciência do mundo mostrava pro Tonico.

- Tonico, dessa vez vê se você acerta... o botão vermelho... vai... não Tonico! O vermelho! Vamos tentar de novo, querido...

- Dãããrrrrr..

Olho para trás e vejo que estou sozinho na fila, todo mundo que estava atrás de mim foi para a outra e já estava sendo atendido.

Depois de seis minutos, a gerente simplesmente decidiu atender a queixa de outro cliente (que achou a batata dele muito salgada) e deixou o “Tonico” sozinho comigo no caixa, parado, imóvel, olhando pra minha cara com aquela boca aberta.

Transtornado, e sem fôlego (literalmente) de criar um barraco, decido simplesmente virar as costas e ir embora. Alterado e impaciente, respirando fundo com os olhos fechados, caminhei em direção à rua sem prestar atenção... pra quê...

Tropeço no degrau da loja e caio de cara no chão.

Todo mundo no Bob´s começou a rir. As pessoas apontavam o dedo na minha direção. Eu olhava pra elas com uma cara misturando vergonha e dor (olhos esbugalhados e respiração ofegante).

Todos gargalhando, olhei para o Tonico, até ele ria da minha cara.

- Há há há, dããããããrrrr.....

Saí correndo desesperado em direção ao meu carro. Entrei, fechei a porta. Ainda podia ouvir as pessoas rindo da minha cara. A rua inteira gargalhava.

Saí em disparada com o carro. Foi quando aconteceu. Foi tão rápido que não deu pra fazer nada. A única coisa que eu vi foi o Tonico parado no meio da rua com os olhos esbugalhados.

Não consegui frear. Atropelei o Tonico.

A rua inteira veio me linchar. Tranquei as portas. Eles quebraram os vidros. Me tiraram do carro à força. Apanhei muito. Me quebraram cinco costelas.

A polícia veio. Anjos do céu. Me trouxeram pro xadrez.

Hoje estou preso respondendo processo por atropelamento e discriminação. Pior que eu nem xinguei o Tonico na loja.

Mas acabaram descobrindo um texto que eu escrevi aí falando mal dele. Meu advogado vai alegar que não fui eu que escrevi aquilo...

* Nota do advogado: Esse texto não foi escrito por Eduardo Valverde. Alguém roubou a senha dele deste blog. Na verdade ele ama todos os portadores de Síndrome de Down, até porque, como ele pode discriminar sua própria raça ? Há, há, há, há...... sacaneei...

* Nota do 2o. advogado: Eduardo Valverde não demonstra de forma alguma caráter discriminatório contra pessoas com necessidade especiais. Ele também não é portador da Síndrome de Down, ele é só um pouco “lentinho”...

Quinta-feira

Supermercado



Fui ao supermercado comprar alguns itens supérfluos e completamente desnecessários tais como Cup Noodles, Ades, Trio e Sensações, a nova batata da Elma Chips. Enquanto estava dentro do supermercado já me arrependia de ter caído por lá. Não era porque meus pais e a empregada iam estar fora no fim de semana que eu deveria abastecer a casa inteira de guloseimas, e muito menos esperar que aquela quantidade de comida fosse me satisfazer por um fim de semana completo.

De qualquer forma achei melhor levar aqueles quitutes, já que eu me conhecia muito bem... sabia que sentiria falta deles num fim de tarde de Domingo por exemplo...

Ao chegar nos caixas, naquele início de noite de sexta-feira, vejo a visão do inferno.

Filas quilométricas, com pessoas segurando seus carrinhos lotados de compras sérias, tais como carne, batata, arroz e óleo Soya. Olhando para os carrinhos, sentia vergonha da minha cestinha azul com meus biscoitos e barrinhas de chocolate. Se naquela sexta-feira à tarde tive a sensação de estar envelhecendo ao ter dito a expressão “se Deus quiser” ao telefone, naquele momento tinha a certeza absoluta de que continuava um pré-adolescente por dentro. Pelo menos na questão de preferências e habilidades culinárias.

Quase desistindo de fazer a compra tanto pelo desânimo das filas quanto pela vergonha das minhas compras bobas (olhares de decepção vinham das pessoas com carrinhos de compras sérias em minha direção), observei um novo e interessante conceito na extremidade direita do supermercado, uma placa escrita “Caixa Rápido – Até 10 itens”. Contei os itens na minha cestinha, sete itens. Um pouco menos desanimado, caminhei em direção ao tal “Caixa Rápido”.

Confiante de que sairia dali em alguns minutos, não mais sentia vergonha dos olhares de reprovação das pessoas que viam minha cesta de guloseimas, muito pelo contrário. Olhava para elas com um certo ar de superioridade, sim, eu vou fazer minhas compras no “caixa rápido”, e vocês todos que se fodam aí.

Passei pela última fila normal antes do “Caixa Rápido” e encarei uma gordinha de vestido azul esperando por último na fila, percebi que ela bateu o olho gordo no meu “Nescau Ball”. Com certeza sentiu desejo, gorda filha da puta. Senti ódio dela e senti o ódio dela em mim por ter lembrado de levar um “Nescau Ball” pra casa.

Ao chegar na fila do tal “caixa rápido”, percebi que ela era bem maior que as outras, mas todos tinham cestas pequenas de compras, com certeza a fila andaria rápido. “Antes uma fila grande que anda rápido do que uma fila curta que anda devagar”, pensei comigo mesmo.

Entrei na fila e comecei a me distrair com meus joguinhos de celular. Depois de duas fases, percebi que a minha fila continuava praticamente imóvel. Olhei longe no horizonte e pude ver a menina do caixa batendo as compras, era lerda a filha da puta, usava óculos fundo de garrafa, contava moedas e precisava de ajuda para discernir as moedas de 5 centavos das de 1 centavo. Quando pensei em trocar de fila olhei para trás e vi umas vinte pessoas atrás de mim. Bem, não vou sair daqui e perder este lugar agora...

Quinze minutos se passaram. Olhava para as filas normais completamente arrependido. Era um arrependimento tão grande e tão forte que chegava a doer. Mas que merda.

Respirava fundo, balançava a perna impaciente, passava a mão no cabelo. Odeio, sempre odiei esperar, toda minha vida.

Olhei para a gordinha, ela estava indo embora com suas compras. Ela olhou para mim e fez aquela cara escrota de satisfação e desprezo ao mesmo tempo. Gorda filha da puta. Que ódio. Que ódio que eu sinto dela.

Caralho, puta que pariu, se eu tivesse entrado na fila dela já estaria indo embora... caixa rápido de cu é rola. Puta que o pariu.

Trinta e cinco minutos depois, esgotado de impaciência, com as pernas doendo, explodindo de raiva, finalmente eu era o primeiro da fila.

Foi quando chegou uma dessas velhinhas de rua, baixinha e leprosa, se encostando toda em mim, pegando no meu braço, chegou bem perto da minha boca e disse baixinho:

- Ô meu filho, você deixa a vovó passar na sua frente ? Eu estou muito cansada, com dor nas costas...

Completamente alterado pela impaciência acumulada nos últimos cinqüenta minutos, exclamei bem alto:

- Aaaaah não! Aaah não! To nessa fila há uma hora! Não vou deixar a senhora entrar na minha frente não!

Nisso, abruptamente puxando meu braço de volta, a velhinha se desequilibrou e caiu de bunda no chão.

Foi quando o supermercado inteiro começou a protestar e me xingar de cretino, covarde, imbecil e filha da puta, entre outras coisas.

O segurança do supermercado, todo marrento e seboso, se aproximou.

- Qual é o pó, porra ?

Uma bichinha que estava atrás de mim se prontificou:

- Eu vi tudo! Ele quis furar a fila toda! Disse que ia dar porrada na velhinha, empurrou ela no chão e ainda disse que a gente aqui era tudo filha da puta! Eu ouvi tudo! Ouvi tudo!
- Ei! Ei! Não foi nada disso! Eu tô nessa fila tem uma hora! Ela que tentou furar a fila e caiu sem querer!
- Covarde! Tentando furar fila na frente de uma senhora ? dizia o segurança enquanto levantava a velhinha.
- Foi sem querer! Desculpa!
- Desculpa é o caralho! Vai pro fim da fila!

O supermercado inteiro batia palmas e gritava de felicidade.

Contestei.

- Se for pra voltar pro fim da fila, prefiro ir embora.
- Hã, hã, tu vai pro fim da fila na marra, mermãozinho. Vai aprender a não ser furão.

Fui escoltado por dois seguranças até o fim da fila do “Caixa Rápido”.

O supermercado inteiro aplaudia e gritava de felicidade me xingando, alegres da vida por ver a minha desgraça.

Resumindo... fiquei mais uma hora na fila, acompanhado de perto por um segurança.

Dez horas da noite estava de volta em casa com as minhas sete compras. Sete compras que tomaram três horas da minha vida. Deixei tudo em cima da mesa. Deitei na cama de roupa e tudo e chorei um pouco antes de dormir.

Sexta-feira

Poodle




Ofegante, me escondi atrás da porta. Meus olhos expressavam o horror em seu mais puro estado. Suava. Minhas mãos tremiam de forma incontrolável. Senti seus passinhos correndo em direção à porta. Seu focinho molhado, frio e negro. Seus dentes afiados, suas gengivas escuras e sua língua fina como de um lagarto.

Mas nada era mais aterrorizante que seus olhos. Negros como o sangue venoso que corria em seu corpo. Em seus olhos via o caldeirão do inferno fervendo em chamas.

Ele latiu.

Seus latidos finos soavam como gritos de horror das vítimas do holocausto. Senti que ele estava atrás da porta, suas patas afiadas como garras de dragão roçavam a madeira. Ele sentia meu medo transbordando no chão. Passou a rosnar como um monstro. O pavor que eu sentia naquele momento me vinha tão forte como a dor de uma crise renal.

Milk entrou pela porta da cozinha que tragicamente estava encostada, não tinha ninguém em casa pra tirar ele de perto da porta do banheiro, onde me encontrava trancado. Minha tia Mericlildes, dona do cachorro, tinha ido na padaria, ela sabia que o Milk não gostava de mim, por isso sempre manteve uma distância saudável entre nós dois. Nada justifica meu medo por poodles, somente o terror que eles emanam naturalmente. Como se eu não já estivesse com um medo estridente, ouço uma voz aterrorizante de trás da porta.

- Abre a porta, Eduardo.

Berrei horrorizado. Era o Milk. Ele falava com a voz no mesmo tom que rosnava. Falava quase arrotando, era monstruoso. Ao ouvir meu berro um tanto afeminado, confesso, ele insistiu:

- Eduardo, deixa de viadagem e abre logo esse caralho, porra.

Tremendo de medo, senti que ele estava inclinado a um diálogo e atendi seu pedido. Lá estava ele, com uma expressão aterrorizantemente humana, vestindo um robe vinho, com um copo de whisky on the rocks na mão direita e um charuto cubano na mão esquerda, com as pernas cruzadas, sentado em sua “caminha de cachorro”.

- Relaxe, vamos negociar.
- O que você quer de mim ?
- Eduardo...

Milk tragou o charuto franzindo os olhos, soltando a fumaça de uma forma que parecia demonstrar prazer propositalmente. Balançou seu copo de whisky e bebeu um gole mínimo, bochechou levemente a bebida antes de engolir. Respirou fundo e continuou falando:

- Quero que você faça um trabalho pra mim. Tem quinze mil dólares escondidos no armário de cima do quarto da gorda escrota (Mericlildes). Pegue o dinheiro para mim e lhe deixo em paz.
- Seu mentiroso!

Dei um tapa no copo de whisky que voou e caiu longe, quebrando, espalhando whisky e gelo por toda a sala. Milk pegou minha mão e apertou o charuto entre meus dedos me queimando todo enquanto falava esbravejando em meio aos meus berros de dor.

- Olha aqui seu MULEQUE, estou planejando isso há muitos anos. Não é um BABACA como você que vai me atrapalhar agora! Ouviu bem seu MERDA ?
- Ouvi, ouvi! Agora me larga!

Milk me soltou e me indicou o armário onde se encontravam os quinze mil dólares. Enquanto localizava a mala de dinheiro ouvia ele falando ao celular...

- Calma, porra. Estou pegando a grana, em poucas horas estou aí, segura tua onda aí, cadela.

Entreguei o dinheiro ao Milk, que empunhando a mala numa mão, olhando para mim, colocou seus óculos escuros, abriu a porta e exclamou:

- Adeus, otário.

Minha tia voltou da padaria chamando por Milk. Disse que não sabia dele. Ela chorou. Meses mais tarde deu falta da grana. Falou com meus pais que fui eu que roubei. Hoje estou no Quartel e adivinhem quem acabou de me mandar um cartão postal das Bahamas ? Ele, Milk:

“Eduardo,

As Bahamas é o paraíso. Sempre sonhei em vir pra cá. Nunca imaginei que a água poderia ser tão morna e transparente. Investi aqueles quinze mil dólares numa pousada e hoje vivo como um rei. Nunca pensei que aquele plano daria certo, mas deu. Hoje sei que as pessoas que se dão bem passam por cima de otários que nem você. Já sabe, se falar qualquer coisa com alguém, te mato muleque. Ah, te mato mesmo. É melhor nem duvidar. Sou mau pra caralho. Te meto-lhe a faca no meio dessa sua cara de babaca. Sinceramente seu,

Milk”


Quinta-feira

Papel Higiênico



Qual poderia ser a desculpa de um homem que foi encontrado por sua mulher dentro do banheiro com o dedo no cu.

- Estava limpando, sua lesma inútil. É você! Você que não compra o papel higiênico! Olhe para este dedo e veja a sua incompetência em estado marrom e levemente pastoso. Uma lama! Uma lama!

Ricardo gritava apontado o dedo sujo em direção à esposa.

- Ricardo. Pára... sério... Isso é nojento. (decepcionada)

- Mas Ju... tsc. (cabisbaixo com o dedo sujo)

Foram juntos ao terapeuta. Terapia de casal. Explicaram o ocorrido no banheiro e a terapeuta, como de costume, fez tudo ao contrário, atacou a pessoa inocente, a Juliana.


- Sua ausência no papel de mulher da casa o leva a comportamentos bizarros tal qual o dedo no cu.

- Mas isso não tem nada a ver com papel de mulher, isso tem a ver com um dedo no cu!

- É claro que tem a ver com papel. Papel higiênico e cu é que nem queijo e goiabada.

- Foi um dia estressante. Estava desestabilizado emocionalmente. Fui ao banheiro pois vejo naquele local a minha fuga da rotina do trabalho sufocante e do ambiente competitivo. Sei, que ali, naquela privada branquinha e simpática, tenho a minha paz. Senti que havia feito um cocô responsa, mas por mais que eu fizesse força, percebi um tolete incompleto pendurado no meu cu que insistia em não cair. Sabia que naquele momento ia precisar de metros e metros de papel higiênico, mas foi aí que aconteceu. Foi quando percebi o horror... o terror... olhei para o lado e vi... o papel higiênico... (começa a soluçar) havia acabado... (chorando copiosamente)...

- E a senhora ainda o culpa ?

- E por quê ele não aproveitou pra tomar um banho ? Limpava o cu com água e sabão, ora.

- Você não vê ? O momento de limpar o cu é o único momento em nossas vidas que esquecemos de tudo e nos desligamos de todas as pressões do dia-a-dia. Ao não comprar o papel higiênico, que é uma responsabilidade sua, você tirou dele o bem mais precioso, a fuga da rotina e do stress que tanto pressionam o Ricardo... (a terapeuta pega nas mãos dele demonstrando carinho). Num momento daqueles, desorientado, ele sentindo aquele incômodo de um cu sujo sem uma solução imediata aparente, colocou a primeira coisa que tinha em mãos, o dedo!

Juliana está confusa.

- Olhe para ele e veja o estado de calamidade em que ele se encontra por tamanho trauma causado pela falta de papel higiênico...

Ricardo faz biquinho e cara de coitado.

- Nossa... não sabia que a falta de papel higiênico poderia causar um problema tão grande...

- Bem. Agora você sabe. Não estamos aqui para julgar ninguém, apenas ajudar.

- Bom. Peço desculpas aos dois. Prometo que nunca mais vou deixar faltar o papel higiênico. Meu bem.. vou para o carro... preciso pensar...

- Tudo bem, meu bem.

Juliana se dirigiu até o carro. Ricardo pisca para a terapeuta que responde com um sorriso maroto.


- Quanto te devo ?

- Depois a gente acerta...

Quarta-feira

Berinjela



Um desespero calculado. Eu olhava para a berinjela e lembrava do tempo de escola, quando não sentia rancor das coisas justamente por não ter um passado tão negro como o meu. Sabia que ao colocar meus dentes naquela coisa meus pecados seriam pagos da forma mais cruel e negra possível. Assim como uma nuvem espessa meus olhos miravam aquelas lembranças cruéis de recreios escolares com merendas mofadas e quentes, onde eu sentira minha língua aguçar os mais apurados sentidos de nojo e repulsa ao ter mastigado, aos sete anos de idade, um sanduíche de atum com pedaços picados de berinjela ressecada, erroneamente entregue a mim naquela cinza tarde de outono.

Uma mesa de um hospital psiquiátrico. Um copo de água mineral e ela, lá estava ela, no centro da mesa, a berinjela. Meus familiares se juntavam ao redor da mesa com seus braços cruzados e olhares de decepção. Meu pai, com seu olhar maligno, me atirava raios de ódio, afinal, foram quinze caríssimos anos de terapia intensiva para descobrir que a origem da minha síndrome de pânico estava naquele sanduíche "inofensivo", como gostavam de o chamar os mal-nutridos de compreensão.

Os vinte e um médicos da terapia forçaram a cura da maneira mais cruel e insensata, é claro, confrontar-me com meu algoz, a dona berinjela. Até eles sentiam ódio de mim, me chamavam de fresco, não se importavam com o fato de eu estar a três metros deles. Viados.

Já se passavam vinte e sete minutos e a berinjela continuava intacta. Minha síndrome havia me tirado a vida, mas me proporcionou uma criatividade imensa. Imaginava a berinjela pegando sol na praia, esquiando na neve, enfim, qualquer imaginação que me proporcionasse o passaporte de fuga daquele cenário de horror. Sabia que aquele tempo havia sido fornecido a mim como momento de concentração para a derradeira mordida, mas era muito silêncio para tal, e já não tinha mais a auto-consciência necessária para a concretização do motivo formal ali celebrado.

Foi quando um terapeuta me aplicou um choque nas costas com aquela vareta elétrica, e quase sussurrando, me ameaçou com palavras hostis:

- Come logo, porra.

Foi quando percebi que não havia saída, talvez aquela mordida me livrasse da prisão de quinze anos do meu quarto, talvez não, de repente essa curiosidade me deu a fome necessária para a mordida. A descoberta de um novo mundo. Lá fui eu, respirei fundo, fechei os olhos, abri minha boca, estendi meu braço ao alcance da berinjela e a trouxe até o meu rosto. Franzi os olhos (uma lágrima caiu), cerrei os dentes e senti um pedaço de horror alcançar minha língua, para desespero de todos os meus sentidos. Sim, eu estava mastigando uma berinjela...

(Flashback)

Eu, sentado no parquinho da escola, ao dar a primeira mordida no fatídico sanduíche. Um berro de dor. Um vômito pastoso. Uma convulsão. Acordei. Corri com os olhos arregalados até o portão da escola sob o olhar de todas as outras crianças, que riam, riam e riam com os seus dedos indicadores apontando em minha direção.

Foi quando o riso daquelas crianças se confundiu com o riso de todos os meus familiares e médicos ao redor da mesa. Mas que filhos da puta. Era isso, era o riso das pessoas que me cegava a vontade de levar uma vida social. Era uma adaga no peito de vergonha.

O coração acelerou, o sangue saiu-me das veias.

Desmaiei.

Acordei meses mais tarde em um hospital no centro de Belfast. Olhei-me no espelho, vestia roupas verdes, minhas sobrancelhas e cabelo pintados de vermelho. Vivi o resto de meus seis anos de vida como um senhor anti-social irlandês viciado em whisky, até morrer de câncer no fígado.

Nunca mais voltaria a comer uma berinjela. Por recomendação médica.

Eu tinha forte rejeição alérgica àquela fruta.

Médicos filhos da puta negligentes. Confundiram uma simples alergia com motivos psiquiátricos. Eu não sou louco.

Louco é quem come berinjela.