Edu Valverde

Quinta-feira

Dieta



Resolvi fazer uma dieta.


Sei lá, hoje todo mundo faz isso né, me sinto meio deslocado quando percebo que não tenho “a minha dieta”.

Hoje em todas as casas que eu vou tem um papelzinho de uma nutricionista na porta da geladeira dizendo o que a pessoa deve comer e a quantidade. Também quero um papelzinho desse. Nem que seja só pra ter.

Sempre tive alma de gordo. Sei disso pela forma com a qual eu me relaciono com a comida. Uma linha tênue entre amor e ódio.

Quanto mais a pessoa é fresca com a comida, mais alma de gordo ela tem. Podem reparar. Todo gordo gosta de uma frescurinha, uma pimenta exótica, uma bebida diferente, um pão especial... e todos os gordos gostam de personalizar a comida. Tipo comer biscoito maizena com nutella. Todos têm sua “invenção maravilhosa”. Mas isso só por causa da enorme rodagem no maravilhoso e extraordinário mundo das comidas gostosas.

Ah... o maravilhoso e extraordinário mundo das comidas gostosas... já andei muito por lá.

É um mundo encantador, mas muito traiçoeiro... Sorvetes, Chocolates, Maria Mole...

Na moral, você passar por essa curta encarnação e ter que passar a vida inteira comendo gelo e alface... amigo, o que vale são os prazeres. Controlar o peso é tranqüilo. Agora, perder... perder é difícil.

Por isso quero um papelzinho.

Vou na nutricionista.

Ela me diz que pra perder peso somente de forma lenta e gradual, com uma dieta rica e balanceada.

Hum.

Vou embora sem o papelzinho.

Mudar toda minha vida e alimentação pra perder 1 quilo por mês é o caralho.

A parada é a seguinte. Perder peso é: fechar a boca, beber refrigerante diet, sauna e exercícios usando casaco.

Lá vêm meus amigos inteligentes e razoáveis dizendo que assim é errado. Que isso acaba com a minha saúde e não adianta nada, só piora, até engorda... bem, até hoje tem funcionado e ainda não morri.

Rio de Janeiro, Domingo, Sol, meio-dia, 44 graus. Acordo, pego minha calça e meu casaco de moletom preto da Hard Rock Café e vou pra praia de Ipanema correr na areia fofa.

- Eduardo, você não vai tomar café da manhã ?
- Não né, mãe... tô de dieta! Dããã.

Começo a correr, todo mundo me olhando. Deve ser por causa do meu casaco da Hard Rock. Invejosos.

Não dá 1 minuto e vem um saradão de óculos e sunga me convencendo a não fazer aquilo me chamando de “mermãozinho”.

Disperso os invejosos balançando os braços e gritando palavras inexistentes.

- Saaaiiiii alêêêê tchóóóó.

Depois de 5 minutos começo a sentir uma tonteira, tipo, normal né, é o meu corpo respondendo bem ao exercício, são as calorias queimando.

Depois disso não lembro de mais nada, meia hora depois lá estava eu desacordado cheio de areia na cara tomando soro no Posto 9, sendo socorrido pelos salva-vidas. Uma multidão de curiosos em volta. Que vergonha.

O salva-vidas disse que me viu caindo de cara e tudo na areia.

As pessoas riem e me chamam de idiota. Invejosos.

Cadê o meu casaco da Hard Rock ? Estava aqui... roubaram ? Ah. Aí é foda.

Mais risos da ralé.

Eu, puto e nervoso, viro pra ralé e grito com os olhos arregalados.

- Vai todo mundo tomar no cu!

O que ouço de resposta é um “uuuuuhhhhh” bem afeminado seguido de um coro de “viadinho! viadinho!” que dava pra escutar até no Leblon.

Saio correndo no meio das gargalhadas pra eles não verem que eu estava quase chorando, mas acho que eles viram sim.

Pra piorar ainda mais a situação, saindo do meio da ralé tropeço numa perna que algum engraçadinho esticou e caio de queixo no calçadão.

Era tudo que a galera queria.

Gritos, urros de alegria e insultos ecoavam na praia. A essa altura tinham umas 300 pessoas em volta, tinha até fotógrafo de jornal popular tirando foto. No dia seguinte saiu no “O Povo’: “Playboy babaca da Zona Sul se fode no calçadão de Ipanema” e uma foto minha com os olhos semi piscando caindo no chão.

Te falar que doeu... ralou meu joelho inteiro.

Chegando de volta no carro, cadê meu carro ?

Provavelmente sumiu junto com a chave que também não está mais no meu bolso da calça de moletom.

Foda. Quem manda desmaiar na areia de Ipanema em pleno Domingo.

Boletim de ocorrência na delegacia. As minhas fotos caindo no chão já estavam na Internet. Mais risos e piadinhas.

Os policiais receberam as fotos num desses emails de correntes contando a história em detalhes, pedindo pra repassar.

Criaram uma comunidade pra mim no Orkut chamada “O Babaca de Ipanema”, hoje tem mais de 8.000 membros. Colocaram link pro meu perfil. Recebo 300 scraps por dia me insultando mas não apago e nem saio do orkut. Sou forte.

Bem, ao menos é isso que eu quero que as pessoas pensem.

Meu nome virou sinônimo de pessoa babaca que tenta emagrecer da maneira errada. Nutricionistas, professores de educação física e academias usam meu nome, até em slogans. “Não seja um Eduardo. Entre para a Body Gym.”

O slogan fez o maior sucesso. A academia bombou. Na comunidade da academia no orkut também tem um link pro meu perfil...

Depois disso desencanei dessa de dietas e passei a adotar uma vida sedentária e obesa com muitas visitas ao maravilhoso e extraordinário mundo das comidas gostosas...

Por quê ?

Porque perder peso é muito difícil.

Terça-feira

Hospital



Toda cirurgia é complicada. Não vem.

Na nossa cabeça parece que é um negócio bastante técnico, cuidadoso, milimétrico, mas aí eu ligo na Sony e o Extreme Makeover me convence que cirurgiões e açougueiros não são muito diferentes entre si, fora o salário. Vivem cortando carne, nem sei como eles não ficam com os braços sarados.

Estou no hospital. Meu médico, que vai fazer minha cirurgia, entra e vem me cumprimentar.

Aperto a mão dele e dou dois tapinhas no braço. Adivinhem.

Braço duro como pedra. Tríceps definido saltando. Sim, aquele músculo do movimento de cortar carne! É a minha cirurgia dando sinais de que vai ser bem delicada.

A enfermeira pede que eu fique pelado e bote aquela roupinha simpática de paciente que fica com a bunda de fora. Gata ela, acato a ordem sem problemas.

Porém a visão do meu corpo nu a afetou tanto quanto um ventilador desligado.

Enfermeiras devem ver muita gente pelada todos os dias, pondero eu muito sem ter o que fazer no quarto de paciente esperando a hora da cirurgia.

Tédio... bem que meu pai podia ter pago a taxa pra ter a TV no quarto, mas ele fez questão de não pagar os 7 reais.

Agora pagaria até uns 50 pra ver a Ana Maria Braga.

Caralho, estou alucinando. Acho melhor dar uma passeada pelo corredor para arejar meu cérebro.

Antes disso vem a enfermeira e me dá o remédio da anestesia.

Acordo, grogue e com o corpo todo dormente. Duas horas depois da frase acima.

Meu médico vem e diz que a cirurgia foi um sucesso. Você já viu algum médico dizer que a sua cirurgia foi mais ou menos ?

Ele diz que hoje eu tenho que permanecer deitado e com o tronco completamente imóvel.

A primeira vontade que eu tenho é de fazer xixi. E aí entra a coisa que mais me impressiona em hospital que é o tal do patinho, aquele troço que a gente usa pra fazer xixi deitado na cama.

Caralho, mermão. Como é difícil fazer xixi assim, é uma luta dentro do seu cérebro pra que ele entenda que não tem problema mijar deitado.

Peço pro meu pai ligar a torneira. Barulho de água, certo que vai agora. Relaxo...

Relaxei demais. O patinho estava fora da mira. Mijei a cama toda.

Lá vem a enfermeira trocar a colcha. Que vergonha.

Numa hora dessas você espera um sorriso de compreensão ou uma piadinha descontraída pra quebrar o clima chato né.

Porra nenhuma.

A enfermeira fechou a cara e ainda soltou um "tsc" bem alto.

Escrota ela.

Lá vem o jantar. Comida de hospital.

Se fizessem um Oscar das coisas mais sem graça do mundo, comida de hospital levaria o prêmio todos os anos.

Tá. Tá bom. Seria indicada, vai.

Não posso comer nada sólido nem quente, aí vem uma sopa branca "de alguma coisa" muito da safada morna pra fria e sem sal.

Aí, na moral. Repensem quando forem fazer cirurgias.

Pô, essa sopa não caiu bem não... acho que vou...

Vomitei.

Lá vem a enfermeira de novo trocar a colcha. Que vergonha.

Dessa vez ela ficou puta mesmo. Me deu até um empurrão de leve, eu ainda babado de vômito, arregalei os olhos surpreso.

Antes de sair ela ainda me deu um leve tapa na cabeça quando meu pai não estava olhando, e nem limpou a minha baba a vadia.

A outra enfermeira me traz um remédio qualquer.

Em um minuto, sinto uma vontade enorme de cagar. E agora ? Como se caga na cama ?

A enfermeira entra dizendo que deu o remédio errado, aquilo era um laxante!

- Pai, quero cagar!
- Segura.
- Não dá!
- Segura!
- ... não deu.

Caguei a cama toda.

Sinto um caldo quente descendo pelas minhas coxas até chegar nos joelhos.

Lá vem a enfermeira de novo trocar a colcha. Que vergonha.

Peço pro meu pai ficar do meu lado dessa vez. Tô com medo.

- Eduardo. Você fede muito neste momento. Vou lá embaixo fumar.

Eu, sozinho, imóvel, todo cagado, fedido, com o cu na mão, esperando a enfermeira psicopata entrar. Que medo.

Ela entra e vê a festa de bosta que eu dei na cama.

Pega o meu prontuário, faz uma cara de assustada e sai correndo.

Estou confuso, desorientado e cagado.

Ela volta junto com meu médico.

- Eduardo, a sua cirurgia era de quê mesmo ?
- Apêndice.
- Xiii...

A enfermeira escrota se delicia.

- Haha! Se fudeu cagão da bosta quente!

Hoje estou processando o médico, claro.

Desde quando uma cirurgia de apendicite pode ser confundida com... fimose.

Pudera ter errado a mira no patinho.