domingo

Mosquito



Sempre odiei mosquitos.

Deitar com a presença e a possibilidade de zumbidos no meu ouvido não me deixa dormir.

Além da raiva que eu sinto quando acordo e vejo que fui mordido. Me sinto furtado, roubado, violentado.

Para tudo isso, sempre travei batalhas épicas com os mosquitos do meu quarto, acredite, sempre tem pelo menos um todas as noites, às vezes até 3 ou 4, e até mesmo o dia em que um simpático mosquito da dengue apareceu.

Juro que era da dengue, era pretinho com bolinhas brancas, igual do comercial.

Foi nesse dia que tomei a decisão de abandonar meu par de sandálias havaianas e me armar de verdade para as batalhas.

Minha primeira providência foi comprar um spray anti-mosquito da Baygon (que mata rápido), mas o negócio nunca matava os bichos, somente os fazia sair voando.

Semi-eficaz.

Passando por uma loja de traquinagem vi um conceito interessante, um troço que você coloca na tomada que faz um barulho que só os mosquitos escutam, que faz eles fugirem. Comprei, 7 reais.

Coloquei o troço. Primeiro, só os mosquitos que ouvem é o caralho, a parada tem um zumbido irritante. Fui ler o manual e ali dizia que esse é o som que os machos fazem quando querem atrair as fêmeas, e que as fêmeas só se alimentam de sangue quando estão com ovinhos, e elas fogem dos machos quando estão prenhas, e que só as fêmeas é que se alimentam de sangue.

Não sei porque mas a expressão “bull shit” ficou voando na minha cabeça. Essa parada me soou muito forçação de barra, muito “conveniente”. Essa porra deve ser caô.

E é, porque a parada se mostrou completamente ineficaz, os mosquitos voavam livremente, inclusive bem perto do negócio. E a parada só servia pra irritar meus ouvidos. Lixo.

O próximo passo foi comprar o Raid Elétrico. Ah muleque, agora sim, essa parada é cara, mas nunca mais vai aparecer mosquito aqui em casa.

É ruim, hein. Porra nenhuma. Tem tanto mosquito quanto antes.

Cansado e desiludido. Os mosquitos deviam estar festejando durante o dia minhas tentativas frustradas de ataque.

Foi quando um dia passando pela Casa&Vídeo reparei num conceito muitíssimo interessante. Uma raquete elétrica a pilhas! Você aperta o botão e a raquete dá choque. Sim! Máquina de fritar insetos!

A partir desse dia foi uma alegria só. Muitos mosquitos eletrocutados, ainda era difícil encontrá-los, mas uma vez voando lentos no ar eram alvos fáceis. Juro que meus instintos assassinos (todo mundo tem, tá) estavam sendo saciados com a raquete, minha mais nova amiga.

Foi quando um dia chegando em casa, liguei a luz do meu quarto e vi minha cadeira girando em minha direção. Quatro mosquitinhos estavam sentados de pernas cruzadas, um fumando um charuto, me apontaram a cadeira de estudar.

- Sente-se, Eduardo.

Sentei, com o rabo do olho busquei visualizar a raquete em cima da estante, omissa, os mosquitos devem ter escondido. Viados.

O mosquito com o charuto deu uma tragada e assoprou longe, soltou um pigarro e começou a falar com uma voz parecida com a do Sean Connery.

- Deixe-me apresentar. Meu nome é Zzz.
- Prazer.
- Muito bem. Uma coisa já deve ficar clara logo, estamos entre amigos aqui. Não estamos ?

Os outros mosquitos se entreolham confusos.

- Porra! Estamos entre amigos ou não ?

Os mosquitos assustados se preocupam em rapidamente responder que sim, sim.

Suavemente ele retoma.

- Então, Eduardo. Estamos entre amigos, rapaz. Que porra é essa de raquete, meu irmão! Que violência, meu amigo... que violência... que coisa desnecessária.

Escuto atentamente sem responder.

- Olha, essas porras... Raid, Baygon, tudo bem. A gente aceita, sabe. Sei lá, faz parte da brincadeira. A gente até gosta de um desafio. Agora, essa raquete, cara. Vou te dizer, complicado hein... não é fácil ver seus amigos eletrocutados, com cheiro de fumacinha no quarto. Aí Eduardo... é desumano.
- Desumano ? Vocês não são humanos, são insetos.
- Ó, ó. Olha o esculacho. Menos, Eduardo... bem menos.

Outro mosquito magrelo e alto com voz fina se prontifica.

- Ah, Eduardo, diz aí! Diz que você não sente falta dos velhos tempos ? Daquelas longas noites de batalhas, das havaianas brancas ?
- Não. Vocês não me deixavam dormir.
- Ah, Eduardo, vai tomar no cu. Você dorme pra caralho.
- Gosto de dormir.
- E a gente gosta de sangue, porra! Tá dificultando pro nosso lado, mermão! Essa porra tem que acabar!

O mosquito soca repetidamente a palma da mão com cara de mau.

- Cadê minha raquete ?
- Está em segurança em algum lugar.
- Vocês não têm força pra levar ela pra longe. Já tô vendo que vocês só conseguiram derrubar ela pra debaixo da cama.
- Tá bom. Tá bom. Está debaixo da cama. Está feliz agora ?
- Acho que a conversa acabou.
- Tsc. Acabou o caralho. Agora você vai ter que se entender com o nosso chefe.
- Chefe ?

Nesse momento entra pela janela um mosquito gigante, do tamanho de uma cigarra.

Fiquei preocupado por um segundo, mas acabei percebendo que o tal mosquitão nada mais era que uma cigarra mesmo, de verdade, se passando por um mosquito, fantasiada com um galho de árvore ridículo na boca fingindo ser um ferrão.

- Rapaziada. Dá pra perceber que é uma cigarra fantasiada de mosquito.
- Droga! Eu sabia! Eu disse pra vocês que ele ia perceber! Eu sempre falei que esse plano não ia dar certo!
- Cala a boca! Cala a boca!
- Galera, tô cansado. Preciso dormir.

Resignados, os mosquitos voam para fora da janela junto com a cigarra.

O líder deles, o Zzz, pára na janela, vira pra trás e confessa.

- Aí, Eduardo. Teu sangue era muito bom, maluco. O que você faz pra ele ficar assim afinal ?
- Deve ser por causa do iogurte de morango.
- Iogurte de morango... vou lembrar disso!

Ele aperta minha mão com sua mãozinha, pega o chapéuzinho de mosquito e sai voando na escuridão.

E nunca mais deu mosquito aqui em casa.

Só um dia que apareceu um perdido, me entregou um bilhetinho e depois foi embora.

Peguei minha lupa e comecei a ler.

"Grande Eduardo, como você está ? Continua usando aquelas roupas ridículas ? Hahaha. Eu estou bem, hoje vivo aqui em Búzios. Mermão, sol o ano inteiro, pergunta se as pessoas lembram de trazer repelente pra cá ? Porra nenhuma, aqui é o paraíso, muitos amigos, muita bagunça. Mas vou te contar, nunca esqueci do seu sangue, meu amigo. Nada igual nesse mundo encontrei até hoje, nunca esqueci do iogurte de morango, mas sei lá, acho que essas coisas são de pele mesmo, sabe... essas coisas de identidade espiritual... às vezes fico me lembrando da sua cama macia, do seu quarto quente, do seu ventilador fraco... "Drão... o amor da gente é como um grão..." Eduardo, eu te amo muito, amor de sangue, cara! Sei que nunca vou te esquecer, mas não vou mais te importunar. Aprendi que quando a gente ama, quer ver o outro feliz, independente de estar com a gente ou não... foi difícil aceitar isso, mas espero que você aceite esta carta com todo o seu coração. Quem sabe um dia a gente se encontra novamente num desses quartos abafados numa dessas noites quentes de verão... e sentir ao menos mais uma vez o seu sangue dentro de mim... com muito amor, seu Zzz."

2 comentários:

Anônimo disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkk
bem criativo

Guga disse...

Eu acho que as noites sem dormir por causa dos mosquitos te deixaram louco.

Mas o texto ficou ótimo! Bem engraçado, vou logo comprar minha raquete pra fritar esses malditos que também me perseguem.