Edu Valverde

Quarta-feira

Peixe



Sempre gostei de aquários.

Desde pequeno, ficava encantado com os aquários que encontrava apenas em casa de tios, amigos e primos.

Como criança autista, confesso, ficava lá, de boca aberta, olhando para os peixes, que vez ou outra pareciam olhar para mim e não se importar muito com a minha presença. Quanto mais velho fiquei, mais achava os peixes seres escrotos e metidos.

Porra, tô ali dando mó moral pro peixe e ele fica de cu doce ? Porra, faz alguma coisa aê, peixe. Fica nadando o dia inteiro. Faz algo de produtivo pra sociedade. Arruma um emprego, escreve um artigo, sei lá. Peixe de merda.

Peguei raiva dos peixes.

Um dia, minha irmã foi na Feira da Providência e trouxe um saco de plástico com 3 peixinhos dourados, pequenos. Os peixes dourados são um pouco menos escrotos, mas não deixam de ser, em sua essência, babacas.

Eles morreram no mesmo dia.

Enquanto ela chorava copiosamente a morte dos peixinhos eu fiquei ali, olhando nos olhos deles, nunca mais esqueci essa cena.

Desde então desenvolvi uma espécia de fobia a peixes. Aham, existe. Se chama ictiofobia.

Minha fobia foi ficando pior com o tempo.

Não podia ver peixes, nadar, tremia de calafrios e medo, meu pânico era ainda maior ao passar sem querer pelo Discovery Channel.

Não podia comer peixes, ver pessoas comendo peixes, sentir cheiro de peixe que me dava ânsia de vômito.

Um dia, fui com a minha namorada assistir um inocente filme da Disney chamado "Procurando Nemo" no cinema.

O horror.

Enquanto a criançada ria eu me contorcia na cadeira, chorando e pedindo minha mãe.

Inclusive sujei minhas calças de uma maneira um tanto, líquida, digamos assim.

Foi nesse dia que minha namorada disse que eu deveria curar essa minha doença.

Me deixou na porta do psiquiatra e, ao acelerar com o carro, jogou minha mochila pela janela e gritou:

"Adeus, maluco da bosta mole!".

Isso não me ajudou nem um pouco com a minha fobia.

O psiquiatra recomendou um tratamento chamado "terapia de exposição graduada".

Eu teria que, gradualmente, começar a ver peixes e aquários, a uma distância cada vez mais próxima, durante um intervalo de tempo determinado.

Eu ainda não estava muito confortável com a presença de peixes quando ele recomendou que eu comprasse um e o colocasse num aquário dentro da minha casa.

Fui lá no Centro com um amigo e me recomendaram um peixe-beta. Um peixe que fica sozinho no aquário e não dá muito trabalho pra cuidar.

O vendedor explicou que o peixe-beta é um peixe de briga, que ataca outros peixes, por isso ele tem que ficar sozinho no aquário.

Compramos o mais quieto. Ficava de costas pra mim o tempo todo. "Assim vai", pensei.

Meu amigo sugeriu que chamássemos o peixe de "Nemo", por ele ser laranja, mas não gostei por causa do trauma do filme.

Ele sugeriu então que chamássemos ele de "Demo", tipo uma alusão aos jogos demo da internet. Taí, gostei.

Só depois percebi que "Demo" era abreviação para "Demônio", mas já tinha me acostumado com o nome e já era muito tarde para trocar.

Acho que ter um peixe-de-briga chamado Demo não deve ser muito bom pra minha ictiofobia.

Agora o Demo fica na minha sala, dentro de um aquário oval, ao lado de um abajur em uma estante. Tenho que alimentar ele todos os dias ao acordar e ao chegar em casa do trabalho.

A primeira noite foi complicada.

Não conseguia dormir sabendo que tinha um peixe dentro de casa. Suava frio. Tive pesadelos com o peixe descendo o cassete em mim. Peixe-de-briga, sabe como é.

Sonhava com ele todo fortão me intimidando e dando tapas na minha cara com sua barbataninha.

Ao acordar, ainda tive que jogar as bolinhas de comida no aquário a uma distância segura, da porta da cozinha, até finalmente acertar uma depois de 20 minutos.

De tarde, coloquei uma cadeira de praia na porta da cozinha e fiquei ali, olhando pro peixe.

Ele olhava pra mim como se quisesse me intimidar. Olhando meio de lado.

Não tava rolando a química entre eu e o peixe.

Liguei pro psiquiatra. Ele me disse que era normal. Que com o tempo eu ia acabar me acostumando com ele.

O sono bateu e adormeci na cadeira de praia.

Ao acordar, já era noite, e o abajur do peixe estava ligado.

Estranhei.

Devo ter ligado antes de dormir, mas era improvável ter chegado tão perto do peixe.

O peixe me olhava com uma cara estranha, levantando o queixo pra mim.

Com medo, decidi sair do apartamento e liguei para o meu psiquiatra.

Ele disse que eu fosse dormir aquela noite fora e voltasse no dia seguinte que estaria tudo normal.

Fui dormir na minha mãe.

Quando voltei pra casa no dia seguinte, não acreditei no que vi.

O aquário estava em cima do sofá.

A televisão ligada.

O controle remoto ao lado do aquário.

Desesperado, fechei a porta e saí correndo.

Morrendo de medo do peixe.

Fui pra casa da minha mãe.

Depois de uma semana, ela me buzinando no ouvido, tomei coragem para voltar no apartamento.

Levei um amigo, claro.

Ao abrir a porta, o que vemos...

A casa estava cheia de aquários de peixes dos mais variados.

O som alto, ração de peixe para todos os lados.

Era uma festa de peixes!

Passando Procurando Nemo na TV, música do filme "O Tubarão", decoração inspirada no fundo do mar.

Era a pura visão do inferno para um portador de ictiofobia como eu.

Saímos correndo e voltei para casa da minha mãe.

No dia seguinte, recebi uma carta, ela estava molhada e escrita à mão.

"Querido Eduardo, aqui é o seu peixe, o Demo. Não tivemos tempo de criar laços afetivos portanto serei breve. Eu estou ficando com o seu apartamento. Você já me encheu o saco com essa porra de ficar entrando aqui de vez em quando. No dia da festa ficou o maior climão. Minha namorada ficou perguntando quem era você. Tá achando que eu sou salmão ? Sou peixe-beta mermão, peixe de briga, tá ligado? Te meto a porrada se tu pisar aqui de novo. E tem mais, acabou a pilha do controle remoto, vê se compra mais aê. Deixa lá embaixo com o porteiro. Gosto de assistir "Discovery Channel - No fundo do mar", me faz lembrar minhas origens. Então é isso. Vê se compra as pilhas e me passa a escritura do apartamento pelo correio. Se tu não fizer isso te pego na porrada. Sei que tu tem medo de mim, boiola. Medo de peixe... onde já se viu ? Ahahaha. Idiota. Um grande abraço, Demo"

Meu Amor




Meu amor.

Sendo meu, somente.

Pertenço e me pertence.

Cuido, busco, sinto e me faz o sorriso, da sensação de bem, de bem querer, de bem estar, de bem viver.

Me faz bem viver ao seu lado, me faz querer viver mais, com você viver.

Como eu vivia sem você ? Se hoje me parece impossível, me tem hoje certo que somente vivi e vivo pra você e por você.

Por isso faz-me teu, me prende, me ama, me conquista e me dá a mão, pois somos o que há de haver, de ser, e se quis.

Meu amor, minha paixão, minha vida...

Meu bom dia, meu sorriso, minha alegria.

A ti te dedico meus prazeres e desejos.

A ti te dedico a minha vida.

Quero estar ao seu lado, viver e sentir o que juntos transformamos em felicidade, qualquer coisa que se queira, me basta em você.

Deitar ao seu lado, te ter em meus braços, sentido pleno de ser, de viver e de sentir o que me cabe.

Após vagarmos ambos por caminhos incertos e custosos, no fim da estrada em que caminhamos, por vezes tristes e solitários, nos encontramos. Nos abraçamos. Dali nos demos as mãos, e sentimos como nunca havíamos, e a partir dali nada mais além de somente viver um para e pelo outro.

Vou viver para te fazer feliz, meu amor, pois o teu sorriso é a minha vida.

É bom te ter, te querer, te mimar e te amar, e assim há de ser para sempre.

Pois, para sempre, serei teu.

E teu, serei somente.

Pois você é o meu grande amor.

Sendo meu, somente.

Meu amor.

Sábado

Dia dos Namorados



Juliana sai pela porta.

Linda, com um vestido longo vermelho, salto alto.

Ricardo, dentro do carro, tentando checar quanto tá o jogo do Flamengo pelo celular.

Ela abre a porta do carro e o abraça. Joga o cabelo de lado para que ele veja o lindo colar que ela guardou para usar em um momento tão especial.

Ele tenta sintonizar a Rádio Tupi AM pra ouvir o jogo. O rádio do carro sempre foi ruim. Só se ouvem ruídos altos e chiados.

Ela estranha.

- Você consegue ouvir alguma coisa?
- Não, más da pra perceber quando é gol.
- Abaixa um pouco, bem. Tá alto.
- Tá bom assim.

Um ruído mais longo se ouve.

"ooooosssshooooooshhhhoooo"

- Aí. É gol!
- De quem?
- Não sei.

Ele acelera e pára o carro na esquina. Liga o pisca-alerta. Abre a porta do carro e sai em direção ao pé-sujo mais próximo.

Ela, dentro do carro ouvindo ruídos e chiados, se estica e o vê se aglomerando em meio à multidão em frente à TV com pay-per-view do pé-sujo. Em seguida, o vê abraçando um mendigo desdentado e sujo com camisa do Flamengo.

Ele volta.

- Gol do Flamengo.
- É final?
- Não. É a 2a. Rodada do returno do Campeonato Carioca.
- Sei. Onde vamos hoje? Você prometeu um jantar especial. É nosso aniversário de um ano de namoro, e é dia dos namorados.
- Então, meu bem. É uma surpresa. Vou te levar no que tem de melhor nessa cidade.
- Ai, que bom.
- O PODRÃO DO CHICO!

Ele pára em frente a uma barraca de cachorro quente no Humaitá, que fica ao lado de um ponto de ônibus.

Ele pára o carro em mão dupla e liga o pisca alerta.

- Não é melhor estacionar?
- Não. Tá bom aqui. É rapidinho. Chico! Faz dois aí no capricho!
- Completo?
- Completo.
- Desce dois completo no capricho! Bota strogonoff? Fica bom.
- Bota!
- Meu bem, eu não gosto de strogonoff.
- Pode deixar, minha senhora! A senhora vai gostar!

Chico é uma figura folclórica no Humaitá. De dia trabalha como mecânico e de noite vende cachorro quente em sua barraca vermelha pintada com o nome em branco de "Podrão do Chicão".

Chico traz dois cachorros quentes mal montados pingando strogonoff, purê de batata, tomate, alface, queijo, catchup, maionese, mostarda, batata palha, milho, ovo, óleo… Juliana não conseguia crer que pudesse caber tanta coisa dentro de um só pão.

- Segura ae.

Juliana segura seu cachorro quente com dificuldade, não conseguindo impedir que metade dos molhos caia em seu vestido novo.

- Vai beber o quê?
- Manda a promoção aí do guaraná natural.
- Desce dois guaraná natural!
- Chico! Faz o seguinte. Completa com água e bota em quatro copos! Pra render mais.

Chico pega o guaraná natural e completa com água tirada de uma garrafa PET sem rótulo que estava debaixo do seu banquinho.

Chico traz equilibrando os quatro copos de plástico. Os copos são daqueles moles, que você aperta e facilmente amassa, derramando tudo.

Enquanto tudo isso acontece, o rádio continua sintonizado na Tupi AM onde só se ouvem ruídos e chiados.

"sshhhhhhh.. Flamengo…..shhhhhhh….. pela direita…….shhhhh…..Obina…shhhhhh"

Ricardo percebe que Juliana ainda não tocou em seu sanduíche. Ela estava mais preocupada em não destruir de uma vez por todas o seu vestido.

- Tá ruim o seu?
- Ricardo, eu não como strogonoff.
- Chico! Tira o strogonoff!
- Tira o strogonoff!

Um gordo de bigode ajudante do Chico, usando calça preta apertadíssima e camisa do Bangu colando em suas gorduras mais que salientes, testa suando, pega a colher enferrujada e joga o strogonoff do cachorro quente de volta no tupperware com cara de poucos amigos.

Chico devolve o cachorro quente com rastros evidentes do strogonoff.

Juliana, ao ver aquela salsicha mal colocada saindo pela metade do pão, quase caindo, aqueles restos de milho, ovo frito, batata palha dura, lança algumas mordidas no pão, pois está com muita fome.

Ela olha para Ricardo, que devora seu cachorro quente, com a boca toda suja.

Nesse momento, um ônibus começa a lançar farol alto para Ricardo, que está parado em mão dupla com o pisca alerta ligado.

- Passa por cima, vai! Passa por cima, porra!

Ricardo gesticula jogando o braço pra fora do carro enquanto olha com raiva para o retrovisor.

Ricardo percebe que Juliana comeu apenas 1/8 do seu cachorro quente.

- Vai comer?

Juliana balança a cabeça.

- Passa aí.

Ricardo devora o sanduíche em três mordidas, para o espanto de Juliana.

- Quanto deu, chefia?
- Duas promoções do guaraná natural. 3 reais.

Ricardo se ajeita todo na cadeira enquanto enfia profundamente a mão em seu bolso. Nunca se viu bolso tão fundo. Arranca de lá algumas notas amassadas de 2 reais, desdobra e entrega pra Chico, que se vira para Juliana e pergunta.

- E aí? Gostou? Bom, né?
- É. Bom...
- Um feliz dia dos namorados pra senhora!

Domingo

Dengue



De um tempo pra cá, todo mundo resolveu pegar dengue.

Dengue é a doença da moda.

Você está sadio? Então você está por fora. A moda hoje em dia é ter dengue.

Se for hemorrágica então, mais chique ainda.

Lá no trabalho a epidemia pegou forte.

Resfriado, febre, gripe e sono do nada passaram a ser chamados de “dengue”.

Nisso, muitos começaram a faltar ao trabalho. Nisso, fiquei sobrecarregado, doravante puto.

Quer saber, vou pegar dengue também. Também quero ficar em casa de bobeira vendo “Um Amor de Gorila” na Sessão da Tarde.



Parece que só as crianças que correm mais risco, então eu só vou ter que ficar de cama mesmo, e de quebra ainda perco alguns quilinhos.

Na hora do almoço, fui até a Lagoa de Marapendi, na Barra. Arriei a calça até os joelhos e a camisa até os ombros. Lá com certeza encontrarei o Sr. Aedes Aegypti. Tão vendo, até o nome dele é chique.

Chegando perto da lagoa, finalmente o encontro. Ele está encostado numa árvore, mirando o horizonte, pensativo.

Aproximo-me e encosto meu corpo na árvore ao lado. Arreio as calças, passo a mão no pescoço e lanço olhares sexy em direção ao mosquito.

Ele praticamente ignora a minha presença, apenas me olha de rabo de olho e volta seu olhar para o horizonte, enquanto fuma seu cigarro Derby.

- Mosquito... ô mosquito. Me pica, vai. Pica-me.

- Você está procurando o mosquito da dengue?

- Não é você?

- Não, Eduardo. Sou apenas um pernilongo comum. Ali naquela casinha de madeira você pode encontrá-lo. É só perguntar pelo Sr. Aedes.

- Obrigado.

Chego na casinha de madeira e bato na porta.

- Seu Aedes? Sou eu, Eduardo.

- Entra.

Entro na casa e vejo o tão famoso mosquito da dengue sentado em uma cadeira de balanço, com um pacote de Doritos aberto e um six-pack de cerveja Itaipava. O clima era meio blasé e o famoso mosquito me parecia um tanto deprimido, enquanto segurava com força o controle remoto da TV em sua mão.

- Tudo bem seu Aedes?

- Eduardo... estou cansado. Em todos os canais, só falam de mim. Estou na capa de todos os jornais. Não agüento mais essa fama. Falam mais de mim do que do Rafinha do Big Brother.

- Mas você provoca mortes, doenças.

- Ah. Grandes merdas. Eu mato uma criança a cada semana no máximo. O que morre de gente por causa do tráfico, dos acidentes de trânsito... não chega nem perto.

- É verdade.

- Por que eu tenho que ser o vilão, Eduardo? Por quê?

O mosquito da dengue começa a soluçar, chorando.

- Não fique assim.

- Fácil falar, meu caro amigo. Não é você que está sendo perseguido! Caçado! Onde quer que eu vá têm agentes da prefeitura.

- Eles nem fazem lá um bom trabalho...

- Tenho calafrios à noite pensando neles, pesadelos! Acordo suando... onde quer que eu vá vejo suas sombras, esvaziando vasos, pneus. Penso nos meus milhões de filhos. Uma coisa é Raid, Baygon, essas porras. Outra é ver meus filhos sendo exterminados ainda bebês em bueiros, telhados, calhas... é um inseticídio! Mas afinal, o que você veio fazer aqui?

- Hum. Nada. Só vim prestar uma visita.

- Sente-se. Pegue uma cerveja. Gosto de assistir ao Globo Esporte acompanhado.

Ficamos amigos, eu e o Sr. Aedes.

Todo almoço dou uma chegada por lá.

Fim de semana também, pois o seu Aedes tem pay-per-view do Campeonato Carioca.

- Não perco um jogo do meu Fogão. Sou tão Botafogo que até nasci com o uniforme preto e branco.

Lá na casa dele a cerveja é sempre gelada. Doritos e Fandangos à vontade.

Um dia desses, fim de tarde, estávamos eu e o mosquito sentados à beira da Lagoa de Marapendi, vendo o pôr-do-sol. Quando o mosquito, reflexivo, coloca a mão em meu ombro.

- É, parceiro. O verão já acabou... o período de chuvas também. É hora de partir.

- Para onde você vai?

- Ah, Nova Iguaçu... belo local. Bueiros ao céu aberto, casas abandonadas. Lá não vendo tanto jornal quanto aqui. A imprensa carioca é sensacionalista, Eduardo. Cesar Maia filha da puta. E tem mais, preciso aproveitar a vida, já estou velho, meu caro. Já tenho duas semanas de vida, morro semana que vem.

- Sentirei sua falta.

- Caríssimo amigo, amanhã à tarde partirei. Venha para o almoço! Assistiremos ao Globo Esporte juntos pela última vez.

No dia seguinte, ao chegar em sua casinha de madeira, não encontro meu amigo mosquito. Apenas uma carta em cima da mesa.

“Eduardo. Te escrevo das profundezas da caixa-dágua abandonada. Os agentes da prefeitura atenderam ao chamado da Associação dos Moradores. Eles já tomaram a ponte e o segundo salão, nós obstruímos os portões, mas não podemos segurá-los por muito tempo, o chão treme; tambores, tambores nas profundezas. Não podemos escapar, uma sombra se move nas trevas, não podemos escapar, they are coming! Haha, tô zoando. Sei que você gosta de Tolkien! Então, tive que sair mais cedo mesmo. Deixei algumas cervejas na geladeira, fique à vontade. Só te peço pra desligar a tomada antes de sair. Então, me adiciona depois no msn: aedes_aegypti@hotmail.com Abraços!"

Erika



Ah, ela...


"Como assim?" Diriam os simplórios.

Meu suspiro já continha mil palavras.

Ela, com seu sorriso estampado no rosto, veio e me cumprimentou com seus dois beijinhos simpáticos e cordiais.

- Prazer, seu bobo.

Ah, sim, bobo. Adjetivo implacável e certeiro para este momento.

Seu perfume era assim, digamos... foda.

Seus cabelos balançavam e refletiam todo o amarelo dos postes antigos das ruas do Leblon, enquanto seu rosto e sorriso captavam toda a luz da lua.

Quem serei eu, perto de uma dessas?

Com minha timidez e inoportuna introversão, me contenho em apenas admirar com os olhos sorridentes.

Ela percebe e sorri, tímida.

Meu amigo percebe e intervém.

- Ela tá ficando com um amigo meu.

Sorrio, sem tirar os olhos dela.

Especialista em cortar baratos, ele prossegue.

- E o cara é bem grande. Ouviu?

Duvido que ele já tenha a olhado da forma como eu a olho agora. E me atrevo a dizer até mais. Atrevo-me a dizer que ela também sabe disso.

Qualquer movimento dela faz minha barriga gelar.

A breve possibilidade de trocar algumas palavras mais longas com ela me faz travar. Os pensamentos, as idéias.

Como sempre tive dificuldade de expressar às meninas que me fazem sentir algo a mais, por ter quase que a certeza de que elas vão perder o interesse por mim, caso eu revele algo além do meu nome e time de coração.

Sempre pensei que, mantendo o mistério, eu guardaria a chance de tê-las em meus braços num futuro utópico que eu sabia que nunca, nunca viria.

Ela vem e se senta conosco.

- E aí, meninos. Quanto tá o jogo?

Chega a ser ridículo, mas quando a admiração é plena, qualquer gesto vindo dela é nobre e soberano.

Perguntar quanto estava o jogo não era curiosidade. Era gentileza, bondade, luz.

Exageros à parte, percebi que olhares sorridentes construíam o nosso diálogo.

Sabia que, contando apenas com meu sorriso e olhar penetrante, tinha chances, até mesmo de abdicar das palavras para despertar interesse e mistério, até mesmo nela.

Uma vez no intervalo do jogo. Todos foram até a varanda conversar. Coloquei-me de lado para responder um SMS.

Uma vez que respondi e levantei a cabeça, percebo que estamos nós dois apenas na varanda.

Ela apoiando os braços na sacada, olhava para o mar torcendo seu pé que insistia em não entrar na sandália.

Ao mesmo tempo em que torcia a boca, sorria, ironizando a si mesma por suas tentativas frustradas de calçar sua sandália esquerda usando apenas o pé.

Olhei para ela e sorri, ela respondeu com um sorriso de volta.

Descalço, coloquei os dedos entre seu pé e sua sandália, simpaticamente atrapalhando suas frustradas tentativas.

Ela ria e batia o pé contra o meu.

Sem trocarmos uma palavra, ríamos como se fôssemos íntimos. Mas ainda crianças.

Ao finalmente calçar seu pé, ela sorriu apenas com a boca e em seguida me mostrou a língua, sem depois conseguir esconder seu lindo sorriso.

Virei para a sacada e sorria de volta, apenas com o olhar.

Ela não escondia sua timidez, pois não conseguia manter seus olhos numa só direção por muito tempo.

Nessas horas, penso demais. Ao mesmo tempo em que não entendia como a deixara assim, não sabia o que dizer, como dizer. Era muita admiração para colocar em palavras.

- Eduardo! Vem ver os melhores momentos!

Melhores momentos do 1o. tempo contra um dos melhores momentos da minha vida.

Mais gente chega na varanda cantando, falando merda e cortando o clima.

Ela volta para a sala com as amigas e eu fico ali, pensando.

Como mostrar, como dizer? Minha certeza de que, ao dizer qualquer coisa, eu estragaria a perfeição do sentimento.

Nada que eu disser vai estar à altura do que ela merece.

Outro amigo meu chega e, já entendendo tudo, discursa sua expertise.

- Eduardo. Se liga. Hoje em dia, mulher gosta é de sinceridade. Se você se amarrou nela, fala exatamente isso: "aí, me amarro na tua".

"Aí. Me amarro na tua...”.

Me convenço mais ainda que palavras não me ajudariam.

O jogo termina. Ela vai embora, sem se despedir.

- Vai, seu liso. Liga pra ela! Fala tudo!

Sei não.

Já aprendi que sinceridade nos coloca em armadilhas traiçoeiras. Expectativas também.

Cada pessoa enxerga o mundo à sua maneira. Pessoas diferentes vivem a mesma experiência de formas diferentes.

Não podemos forçar ninguém a gostar da gente. Somente aprender que a maioria das pessoas só quer receber aquilo que temos de melhor a oferecer para elas.

Poucas pessoas estão dispostas a receber o que temos de melhor e de pior. E são essas pessoas que valem muito, muito, ter sempre ao seu lado.

Nunca mais a encontrei. 3 meses se passaram e pequenas coisas ainda fazem com que eu lembrasse dela.

Tenho certeza que ela já me esqueceu. Pois sou somente mais um certo alguém que cruzou o seu caminho e não, não mudou a direção.

Como tudo nessa vida é relativo, sigo em frente, até porque no fim, as coisas em si mesmas não são nem boas nem más, é o pensamento que as torna desse ou daquele jeito (Shakespeare coça a cabeça no túmulo).

Final triste? La la la...

(Ao som de Feist - One Evening)