quinta-feira

Supermercado



Fui ao supermercado comprar alguns itens supérfluos e completamente desnecessários tais como Cup Noodles, Ades, Trio e Sensações, a nova batata da Elma Chips. Enquanto estava dentro do supermercado já me arrependia de ter caído por lá. Não era porque meus pais e a empregada iam estar fora no fim de semana que eu deveria abastecer a casa inteira de guloseimas, e muito menos esperar que aquela quantidade de comida fosse me satisfazer por um fim de semana completo.

De qualquer forma achei melhor levar aqueles quitutes, já que eu me conhecia muito bem... sabia que sentiria falta deles num fim de tarde de Domingo por exemplo...

Ao chegar nos caixas, naquele início de noite de sexta-feira, vejo a visão do inferno.

Filas quilométricas, com pessoas segurando seus carrinhos lotados de compras sérias, tais como carne, batata, arroz e óleo Soya. Olhando para os carrinhos, sentia vergonha da minha cestinha azul com meus biscoitos e barrinhas de chocolate. Se naquela sexta-feira à tarde tive a sensação de estar envelhecendo ao ter dito a expressão “se Deus quiser” ao telefone, naquele momento tinha a certeza absoluta de que continuava um pré-adolescente por dentro. Pelo menos na questão de preferências e habilidades culinárias.

Quase desistindo de fazer a compra tanto pelo desânimo das filas quanto pela vergonha das minhas compras bobas (olhares de decepção vinham das pessoas com carrinhos de compras sérias em minha direção), observei um novo e interessante conceito na extremidade direita do supermercado, uma placa escrita “Caixa Rápido – Até 10 itens”. Contei os itens na minha cestinha, sete itens. Um pouco menos desanimado, caminhei em direção ao tal “Caixa Rápido”.

Confiante de que sairia dali em alguns minutos, não mais sentia vergonha dos olhares de reprovação das pessoas que viam minha cesta de guloseimas, muito pelo contrário. Olhava para elas com um certo ar de superioridade, sim, eu vou fazer minhas compras no “caixa rápido”, e vocês todos que se fodam aí.

Passei pela última fila normal antes do “Caixa Rápido” e encarei uma gordinha de vestido azul esperando por último na fila, percebi que ela bateu o olho gordo no meu “Nescau Ball”. Com certeza sentiu desejo, gorda filha da puta. Senti ódio dela e senti o ódio dela em mim por ter lembrado de levar um “Nescau Ball” pra casa.

Ao chegar na fila do tal “caixa rápido”, percebi que ela era bem maior que as outras, mas todos tinham cestas pequenas de compras, com certeza a fila andaria rápido. “Antes uma fila grande que anda rápido do que uma fila curta que anda devagar”, pensei comigo mesmo.

Entrei na fila e comecei a me distrair com meus joguinhos de celular. Depois de duas fases, percebi que a minha fila continuava praticamente imóvel. Olhei longe no horizonte e pude ver a menina do caixa batendo as compras, era lerda a filha da puta, usava óculos fundo de garrafa, contava moedas e precisava de ajuda para discernir as moedas de 5 centavos das de 1 centavo. Quando pensei em trocar de fila olhei para trás e vi umas vinte pessoas atrás de mim. Bem, não vou sair daqui e perder este lugar agora...

Quinze minutos se passaram. Olhava para as filas normais completamente arrependido. Era um arrependimento tão grande e tão forte que chegava a doer. Mas que merda.

Respirava fundo, balançava a perna impaciente, passava a mão no cabelo. Odeio, sempre odiei esperar, toda minha vida.

Olhei para a gordinha, ela estava indo embora com suas compras. Ela olhou para mim e fez aquela cara escrota de satisfação e desprezo ao mesmo tempo. Gorda filha da puta. Que ódio. Que ódio que eu sinto dela.

Caralho, puta que pariu, se eu tivesse entrado na fila dela já estaria indo embora... caixa rápido de cu é rola. Puta que o pariu.

Trinta e cinco minutos depois, esgotado de impaciência, com as pernas doendo, explodindo de raiva, finalmente eu era o primeiro da fila.

Foi quando chegou uma dessas velhinhas de rua, baixinha e leprosa, se encostando toda em mim, pegando no meu braço, chegou bem perto da minha boca e disse baixinho:

- Ô meu filho, você deixa a vovó passar na sua frente ? Eu estou muito cansada, com dor nas costas...

Completamente alterado pela impaciência acumulada nos últimos cinqüenta minutos, exclamei bem alto:

- Aaaaah não! Aaah não! To nessa fila há uma hora! Não vou deixar a senhora entrar na minha frente não!

Nisso, abruptamente puxando meu braço de volta, a velhinha se desequilibrou e caiu de bunda no chão.

Foi quando o supermercado inteiro começou a protestar e me xingar de cretino, covarde, imbecil e filha da puta, entre outras coisas.

O segurança do supermercado, todo marrento e seboso, se aproximou.

- Qual é o pó, porra ?

Uma bichinha que estava atrás de mim se prontificou:

- Eu vi tudo! Ele quis furar a fila toda! Disse que ia dar porrada na velhinha, empurrou ela no chão e ainda disse que a gente aqui era tudo filha da puta! Eu ouvi tudo! Ouvi tudo!
- Ei! Ei! Não foi nada disso! Eu tô nessa fila tem uma hora! Ela que tentou furar a fila e caiu sem querer!
- Covarde! Tentando furar fila na frente de uma senhora ? dizia o segurança enquanto levantava a velhinha.
- Foi sem querer! Desculpa!
- Desculpa é o caralho! Vai pro fim da fila!

O supermercado inteiro batia palmas e gritava de felicidade.

Contestei.

- Se for pra voltar pro fim da fila, prefiro ir embora.
- Hã, hã, tu vai pro fim da fila na marra, mermãozinho. Vai aprender a não ser furão.

Fui escoltado por dois seguranças até o fim da fila do “Caixa Rápido”.

O supermercado inteiro aplaudia e gritava de felicidade me xingando, alegres da vida por ver a minha desgraça.

Resumindo... fiquei mais uma hora na fila, acompanhado de perto por um segurança.

Dez horas da noite estava de volta em casa com as minhas sete compras. Sete compras que tomaram três horas da minha vida. Deixei tudo em cima da mesa. Deitei na cama de roupa e tudo e chorei um pouco antes de dormir.

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