terça-feira

Ventilador



Eu tenho um ventilador no meu quarto. Eu sempre gostei mais de ventilador do que de ar condicionado, sempre preferi sentir uma brisa a passar frio.

Sábado à tarde. Pico do calor. Não existe vento. O ar está quente e abafado. O ventilador se torna algo completamente inútil. Como estou muito queimado de praia, completamente ardido, pela primeira vez em meses penso em ligar o ar, mas sou muito mais tomar uma ducha. Saio do banho e dois minutos depois já estou suando de novo.

Olho para o ar condicionado e ele olha pra mim. Continuo resistindo e vou buscar uma água gelada na cozinha. Quando chego lá descubro para meu horror que a emprega está descongelando a geladeira. Não tem nada gelado em casa.

Penso em ir para a rua buscar algo, sei lá. Olho pela janela e vejo o vapor do asfalto subindo. Vou para a praia. Foda-se se estou queimado. Dessa vez passo Sundown. Enquanto boto a sunga, ligo a tevê e vejo o noticiário dando tumulto na praia, arrastão, assalto, mortes e o caralho a quatro.

Porra. Nem praia rola.

Preciso pelo menos sair de casa. Tá foda de quente. Quando abro a porta vejo o porteiro correndo em minha direção dizendo que ninguém pode sair de casa porque o prédio da frente está sendo assaltado e a polícia está toda na rua.

Ô caralho. Sento em frente à janela e fico assistindo ao cerco policial.

Como está quente. O calor começa a subir na minha cabeça e começo a ter alucinações. Olho para o ar condicionado de novo e ele continua olhando pra mim.

Caminho em direção a ele, vou ligá-lo pela primeira vez depois de tantos meses.

Quando meu pai aparece na porta.

- Ei! Ei! Tá maluco? Vai ligar não!

Foda. Meu pai é muito mão de vaca. Nem sei porque eu tenho ar no meu quarto.

Deito no chão e começo a derreter.

Sinto os pingos caindo pelos meus braços. Uma sauna.

Tranco a porta e fico pelado. Quem disse que adianta. Acho que vou morrer.

Quer saber? Vou ligar essa porra. Foda-se.

Minha mão alcança o botão. Gira. Sinto o barulho do motor. Uma explosão.

Queimei o ar. Nunca mais tinha usado essa merda. Girei o troço muito rápido.

Transtornado, viro as costas e caminho em direção à porta. Passando pelo espelho, o que vejo.

Minhas costas estão queimadas! Estou pegando fogo! Aaaahhh! Socorro!

Rolei no chão e agora além de estar morrendo de calor estava queimado literalmente. Começo a sentir frio. Sabe aquele frio quando seu corpo está quente ? Meu corpo está reagindo aos ataques de calor. Estou passando mal.

Abro a porta, meu pai passa pelo corredor e vê a parede da tomada do ar toda preta.

- É foda! Não consegue ter nada. Quebra tudo. Vai ficar sem ar mermo. Foda-se!

Eu vi que ele viu minhas costas queimadas mas nem se importou. Não tá nem aí. Ele é médico. Acha que qualquer dorzinha é frescura.

Não tenho outra alternativa a não ser ficar embaixo do chuveiro por uma hora. Ligo o chuveiro e ouço aquele barulho. Minha empregada grita que acabou a água no prédio.

Fudeu. Estou em casa sem ar, sem água, queimado. Vou morrer de calor. É isso aí.

Deito na cama mas minhas costas estão tão queimadas que dói demais.

Só me resta o fiel e velho ventilador.

Ligo ele e fico bem em frente. O desespero é tanto que eu lambo a minha pele para me refrescar. Até que tá funcionando...

Vou sentindo uma melhora... acho que estou até pegando no sono... vou fechando os olhos... inclinando pra frente... ...

Estou no Pronto Socorro. Cortei toda minha cabeça no ventilador. Foda. Enquanto era levado pro hospital ouvia meu pai exclamando.

- Burro pra caralho! Retardado mental! Só meu filho pra se foder com essas merdas mermo!

Ninguém está no meu quarto de hospital neste momento. Minha família me odeia. As enfermeiras riem da minha cara. E o foda é que ninguém viu minha queimadura nas costas e tá doendo pra caralho! Acho que tá piorando... essa mancha de sangue meio alaranjada no lençol não pode ser uma coisa boa...

Chega uma enfermeira, alegando que está muito quente enquanto traz consigo um daqueles ventiladores gigantes que criam um tufão. Ela coloca na tomada e a última coisa que eu lembro foi sentir uma leve brisa antes dela tropeçar no fio e fazer o mega ventilador cair em cima de mim, terminando de cortar toda a minha cara.

Hoje em dia é óbvio que eu tenho traumas de ventiladores. Me mijo todo só de ver um ligado. Sentir a presença de um me dá calafrios.

Ventiladores de teto então, ainda mais aqueles que ficam balançando, parece que vão cair o tempo todo... esses me fazem literalmente cagar nas calças. É sério.

6 comentários:

Anônimo disse...

Você escreve muito bem. Me apaixonei por seus textos.

Eduardo Valverde disse...

Que maravilha voltar a ler seus textos!!!Eu me lembrava de que eles sempre foram maravilhosos desde o Blogh de Merda,mas com o tempo vc ainda está melhor...A gente precisa publicar estes textos.Sério!!
VV

Marquinhos disse...

Fala Primo!
não conhecia esse seu dom!
li alguns textos, são surpreendentemente contagiantes!
vc tem talento!
sucesso!

Anônimo disse...
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Anônimo disse...
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Anônimo disse...
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