quinta-feira

Vaca amarela



- Vaca amarela cagou na panela, quem falar primeiro vai comer a bosta dela.
- ...
- ... ...
- ... hihihi...
- ...
- ... ...
- É. Peraí gente.
- Ah! Falou! Falou!
- Hahaha.
- Não. Não. Eu só quero saber que horas é o jantar!
- Hahaha.
- Se fudeu, muleque! Vai comer!

Todos acorrentaram Carlinhos à força e empurraram bruscamente e com força desnecessária para dentro do carro do Adriano. Seguiram rumo à fazenda do pai do Paulo.

Carlinhos se debatia acorrentado enquanto todos riam e se divertiam com a situação.

- Como eu vou comer bosta de uma vaca amarela? Não existe vaca amarela, porra!
- Tsc. Meu pai tem uma vaca amarela. A bosta dela tem um cheiro muito do ruim. Vai comer. Iiiaaa.
- Vocês estão zoando né. Eu sei que estão.
- Beleza.

Chegaram na fazenda. Conduziram Carlinhos acorrentado até o celeiro onde podiam ver o pai do Paulo pintando a vaca com tinta amarela.

- Porra pai! Eu falei pra você pintar ela ontem!
- Ah! Vai se fuder! Termina de pintar aí que eu tô puto!
- Galera! Sacanagem! Aí! Sério! Não faz isso comigo não!
- Carlinhos, você não entende que quanto mais você fala mais a gente quer ver você comendo bosta, caralho!

Tinha bosta da vaca por todo o chão do celeiro. Diante daquela situação irremediável, Carlinhos se dirigiu até o montinho de bosta menos nojento. Cheirou. Os muleques tremiam de alegria ao ver aquela cena.

- Mermão. Essa é a coisa mais engraçada que está acontecendo no mundo neste momento.
- Leque. Com certeza.

Carlinhos fechou os olhos e imaginou uma picanha. Abriu a boca e começou a comer a bosta.

Os urros e gritos de alegria e excitação logo se transformaram em silêncio após perceberem que Carlinhos estava gostando de comer a bosta.

Todos se entreolhavam. Carlinhos não parava de comer. Todos ficaram meio tristes olhando Carlinhos com os olhos arregalados comendo a bosta freneticamente. Renato começou a chorar. Paulo pediu para que ele parasse, mas Carlinhos recusou balançando a cabeça. Todos foram em direção à casa e deixaram Carlinhos sozinho no celeiro.

Enquanto tentavam jantar discutiam o fato recente. Poucos ali realmente conseguiam comer. O silêncio e o desconforto imperavam. Uma coisa eles decidiram. Iam parar de pegar pesado nas brincadeiras com o Carlinhos.

Paulo levantou-se e caminhou até o celeiro para buscar Carlinhos numa boa. Encontrou-o cabisbaixo num canto com restos de bosta de vaca pela boca e pela camisa, dava pra perceber que estava chorando antes dele chegar.

- Tudo bem, cara?
- ... tudo.
- Cara. Vamos?
- Vamos...

Paulo abraçou Carlinhos e levou-o até a casa. Quando Carlinhos entrou pela porta, o silêncio rompante dominou o local. Cinco segundos se passaram quando Adriano ameaçou zoá-lo.

- Iiiiaaaa....

Foi logo interrompido pelo olhar de reprovação de todos.

Todos voltaram no carro em silêncio. Pouco se falaram depois do episódio. Carlinhos acabou se afastando da galera.

Ficaram sabendo depois que ele acabou virando fazendeiro. Morrendo dois anos depois de infecção estomacal. Abusava muito da bosta de vaca o cara.

Dizem que chegou até a procurar um psiquiatra pra livrá-lo do vício, mas não passou da primeira consulta. A parada era muito forte e frenética. Deixava ele ligadão.

Galera em respeito à morte dele nunca mais brincou de vaca amarela. A não ser somente nos momentos de humor negro. Aí costumava ser bem engraçado.

Um comentário:

Anônimo disse...

Você é lindo e gostoso!