sábado

Fotinha



Fotinha era uma menina ordinária. Nada chamava atenção nela, a não ser uma compulsão preocupante por fotos. Adorava tirá-las, adorava vê-las.

Passava horas com os álbuns de fotos na mão, reparando cada detalhe, enxergava coisas que ninguém se preocuparia em ver.

Ao mesmo tempo em que era irritante, também era mão na roda, pois registrava todos os eventos da galera, e como tirava as fotos e nunca aparecia nelas, acabava sendo útil de alguma forma.

Sim. Nunca aparecia nas fotos, era bitolada em fotografar, mas fugia de qualquer tipo de foto, não gostava, e hoje nem tentam chamá-la, pois reagiu de forma agressiva nas poucas vezes que tentaram. Inclusive o famoso episódio em que tiraram uma foto sua sem perceber, e em seguida ela arrancou o filme da máquina e jogou no poço aos prantos.

Sim. Zoam que um dia sai uma Samara dali.

Para evitar momentos embaraçosos; sempre tem alguém que acaba chamando ela para aparecer; a galera já deixava avisado para os desinformados.

- Ei. Não chama não. Relaxa.
- Mas ela nunca sai.
- É. Ela é maluca. Deixa quieto que depois te conto mais.

Em plena madrugada, você podia ver a luz acesa pela janela do quarto de Fotinha, era ela folheando seus álbuns de fotos.

- Mais de 40 mil.
- 40 mil ?
- É. Papo de 40 mil fotos que ela tem, negócio desse.
- Cara. Bizarro. Sombrio.
- Muito.

Numa dessas madrugadas, Fotinha estava quase terminando de folhear um de seus muitos álbuns, quando ela ouve uma voz sussurrando vinda de uma das fotos. Ela não conseguia ouvir direito, aproximou o ouvido e escutou bem baixinho.

- Cocôôô...
- Hein ?
- Cooocôôô…
- Não consigo ouvir.
- Coooooocôôôôôô...
- Co o quê ?
- COCÔ, PORRA!
- Ah.

Fotinha olhou bem para a foto e viu o rosto de diversos amigos em uma festa da semana passada, mas um rosto em especial lhe chamou a atenção.

Era o rosto de um dos meninos, que estava ao lado do Daniel, devia ser amigo dele ou algo assim, pois ela não conhecia o menino e nem lembrava o nome. O garoto saiu na foto com os olhos esbugalhados e com um sorriso forçado, tipo, muito estranho mesmo.

No dia seguinte, Fotinha mostrou a foto para Daniel, que calado, olhou nos olhos de Fotinha por alguns segundos e sem exclamar uma palavra, levantou-se e saiu da mesa.

Fotinha está confusa. Volta a olhar para a foto e percebe que algo mudou no rosto do garoto, ele está mais sério, continua sorrindo, mas inexplicavelmente mais sério.

Uma hora depois, Daniel volta e pede para ver a foto novamente.

Visivelmente abalado, ele começa a explicar sua inquietude.

- Fotinha, esse aí é o meu primo. Só que tem um problema. Ele morreu. Há 2 meses atrás.

Fotinha olha bem nos olhos de Daniel buscando algum sinal de que aquilo seria uma mentira. Daniel olha nos olhos de Fotinha seriamente. Sim, era verdade. Ou ele mentia muito bem.

- Ontem à noite parecia que ele estava falando comigo.
- Como assim ?
- Sei lá. Pode parecer loucura, cara. Mas eu juro que eu ouvi ele repetindo uma palavra através da foto.
- Qual palavra ?
- Jura que não vai rir ?
- Não.
- Pô. Jura.
- Pô. Não.
- Era cocô.
- Cocô.
- É. Cocô.
- Cocô de cocô ?
- É, porra. Cocô, cocô.
- Hum.
- Que foi ?
- Acho que sei o que está acontecendo.

Daniel levou Fotinha até sua casa depois do colégio, e se dirigiram até o banheiro.

- Você vai achar isso nojento, mas vai entender.
- Ai.

Daniel retira uma jarra de vidro de trás da privada.

A jarra está repleta de um líquido amarelado, tipo formol, e dentro dele se encontra um tolete de cocô.
- Que nojo, Daniel! Seu doente!
- Calma, porra! Eu vou explicar, mongol.
- Começa.
- Antes de morrer, meu primo, em seu leito de morte, me pediu para ir na privada e guardar para sempre o cocô dele, o qual ele caprichosamente não havia dado descarga. Ele deu lá suas explicações confusas, disse que tinha a ver com imortalidade, promessas, O Rei Leão e o caralho a quatro. Fiz o que tinha que fazer, não se nega nada a alguém em seu leito de morte.
- E o que esse cocô tem de tão especial ?
- A princípio nada além do tamanho extremamente generoso, não é mesmo ? Mas agora com essa história de foto, acho que vale a pena investigarmos.

Fotinha e Daniel foram para o Laboratório Lâmina e pediram um exame no material fecoso.

Depois de duas horas, volta um médico em direção a eles.

- Você que é o Daniel ?
- Sim.
- Então, não encontramos nada demais naquele cocô a não ser alguns pedaços de milho.
- Hein ?
- Haha. Tô zoando. O exame já ta saindo, espera aí.
- Ok.
- Mas vocês entenderam a piada né ?
- Oi ?
- Tipo, eu sou médico né. Aí eu deveria dar um diagnóstico foda, mó detalhado e tal, aí tipo eu venho e digo que só encontrei milho. Engraçado né.
- Não.
- Ok.

Outro médico chama os dois para a sala e aponta para a pia. Ali se encontrava um papel rasurado.

- O que é isso ?
- Estava dentro do cocô. Acho que é pra você.
- É um bilhete! Leia, Daniel! Leia!

“Daniel, aqui é o seu primo, Eduardo Valverde. Estou há duas horas tentando encontrar um final engraçado para essa história maluca de Fotinha e cocô, mas não fui feliz. Cansei. Espero que você entenda e não fique chateado comigo. Um grande abraço do seu primo. Eduardo Valverde”

Daniel vira para Fotinha com um sorriso maroto no rosto e quase gritando, exclama.

- Mas é um babaca mesmo!

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