sábado

Praia



Rio de Janeiro.

Domingo de Sol.

Ontem lisei na night.

Então hoje vou pra praia.

Ligo pros meus amigos. 10 da manhã.

Todos eles estão dormindo fora de casa, na casa das mulherzinhas que eles pegaram ontem ou nos motéis da vida. Que beleza. Eu sou o liso da galera.

E daí. Vou sozinho mesmo. Nunca fui sozinho pra praia, mas acho que vai ser bom. Vou ficar pensando na vida e sobre o que ela me fez nos últimos meses.

Chego em Ipanema e sento na areia.

Não demoram dois minutos pra descobrir que ir para a praia sozinho é um saco.

O legal da praia é conversar com os amigos, especialmente se forem os mesmos da noite anterior para explanar todas as merdas que cada um fez.

Mas tudo bem, vou ficar aqui olhando pro mar e filosofar sobre a vida.

Não demoram 10 segundos para eu lembrar que tenho preguiça de pensar de manhã.

Mas que merda isso.

Acho que vou embora.

Antes disso, decido dar um pulo na água.

Peço para duas meninas olharem as minhas coisas.

Vou lá e dou um mergulho. A água está ótima, ondas de 1 metro perfeitas para a prática do jacaré. Como diria o Rico de Souza, vale uma brincadeira.

Onda de 1 metro pra lá e pra cá.

De repente sem avisar me vem.

Uma onda de 5 metros.

A praia inteira grita “ooooohh”.

A água está 30 metros flat, rasa, na altura da cintura com a morra de 5 metros em pé tipo buraco, uma parede vindo em minha direcão.

Olho para os lados, eu sou o único que ainda ficou na água, todo mundo saiu, até os surfistas.

O salva-vidas me grita da areia: “Sai da água seu merda!”

Começo a nadar desesperadamente por minha vida.

Mas acho que não foi uma boa idéia. Caio direto na arrebentação, o refluxo da onda puxa toda a água e eu praticamente fico deitado na areia diante da onda gigante.

A praia inteira grita “ooooohhhh”.

...

O maior caldo da história de Ipanema.

Minha bermuda desaparece.

Engoli tanta água e areia que meus pulmões sentem dificuldade de respirar, e nessa eu já não consigo nadar contra a corrente.

Vejo a praia. As pessoas se aglomeram para ver meu afogamento. Meu fim.

De relance vejo as duas meninas que eu pedi pra cuidar das minhas coisas vendo os SMSs do meu celular e rindo.

Ouço barulhos de helicóptero.

Olho para o céu e vejo aquela redinha descendo com o salva-vidas, ele grita algumas coisas mas não escuto por causa do barulho.

O salva-vidas salta na água.

Displicente, ele cai batendo com o joelho na minha cabeça.

- Porra, mermão! Eu falei pra você sair debaixo!
- Desculpa!

Entro na rede com ele e o helicóptero nos puxa.

Nessa hora olho pra praia e vejo cerca de 300 pessoas na areia.

Agora, a sensação de ser resgatado pela redinha é uma mistura de alívio, vergonha e um desejo incontrolável de ter um pozinho pirlimpimpim de sumiço.

O helicóptero me solta na areia como se eu fora um peixe grande e morto para apreciação do grande público.

A multidão faz uma roda em minha volta.

Somente nessa hora eu lembro que estou pelado.

As crianças riem e fazem piadas sobre o tamanho do meu órgão sexual.

Porra, a água estava fria!

O salva-vidas me traz uma toalha vermelha e me cobre as costas, mas nada de cobrir minhas partes íntimas.

Infelizmente um senhor me reconhece e grita.

- Olha, gente! É o Eduardo! Aquele! O Babaca de Ipanema!
- Ahahahahahaha.

Que vergonha.

Olho para o lado e vejo meus amigos, aqueles mesmos que eu liguei de manhã, todos rindo de mim.

Eles mentiram dizendo que estavam dormindo, vieram pra praia juntos e não me chamaram.

Acho que eles não são tão meus amigos assim, porque eles estão rindo muito com os olhos esbugalhados e apontando o dedo em minha direção.

Chego em casa, entro no orkut e descubro que criaram um novo tópico na minha comunidade: “O Babaca de Ipanema”, contando sobre o meu afogamento seguido de nudez, com link para as fotos comigo pelado, com montagens e insultos à minha pessoa e às minhas partes íntimas.

A cada 30 segundos dou um “refresh” no meu scrapbook e aparecem no mínimo uns 3 novos xingamentos.

Mas eu não apago os scraps e nem saio do orkut. Sou forte.

Bem, ao menos é isso que eu quero que as pessoas pensem.

Mas acho que não está funcionando muito não, pois as pessoas continuam voltando para me xingar.

E agora meu scrapbook virou uma espécie de “chat” onde as pessoas se encontram, conversam e se divertem, chegam até mesmo a marcar de saírem juntas, todas se identificando pelo ódio em comum à minha pessoa.

Depois desse dia nunca mais fui à praia.

Me mantive esses últimos 8 meses trancado em meu quarto, com as cortinas fechadas. Estou branco, gordo, barbudo e desenvolvendo raquitismo por não sair do quarto e nem ver a luz do sol por tanto tempo. Passo o dia inteiro dando “refresh” no meu scrapbook, lendo os insultos que as pessoas me deixam, destruindo por completo o resquício de auto-estima que me resta.

Ninguém me ama.

Foi quando um dia aconteceu.

Recebi um scrap de uma menina pedindo pra eu ver um cartão do dia dos namorados que ela tinha me enviado.

Meu coração acelerou, o sangue correu mais forte nas veias, a respiração se tornou ofegante, finalmente alguém me ama nesse mundo.

Cliquei no link.

Era um vírus.

Chorei 3 dias seguidos.

Foi quando decidi ir embora.

Vou fugir desse país inóspito e sem coração, vou recomeçar minha vida em outro lugar.

Fiz o seguinte, peguei o globo do meu pai, girei, fechei os olhos e coloquei o dedo, onde eu apontar vai ser o meu novo destino.

Bangladesh.

Puta que pariu. Nem assim eu dou uma dentro. Mas beleza.

De repente uma sensação deliciosa percorre o meu corpo. É a sensação de recomeço, uma vida nova, uma janela se abre diante dos meus olhos e eu gosto do que vejo.

Um lugar pra recomeçar e viver a vida nova, sem julgamentos, sem culpa, sem os erros do passado.

No avião, começo a planejar os detalhes de minha nova etapa, vou trabalhar na indústria do petróleo, ficar milionário e aí sim, as pessoas vão me amar e me venerar.

Lá ninguém me conhece, agora sim vou ser feliz.

Mal conseguia conter a forte emoção.

Chegando em Bangladesh, desço do avião e vejo uma multidão com uma placa.

“Welcome Babaca de Ipanema!”

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