sexta-feira

Celular



Ganhei um celular novo!

Ùltima geração, pá e tal. Não ligo muito pra essas coisas. Mentira.


Adorei meu brinquedo novo, ganhei da empresa, ao substituir um modelo mais velho.


Quem não gostou muito dessa história foi meu celular pessoal.


Tipo, ele é bom também, mas acontece que esse novo que eu ganhei é exatamente o modelo mais novo do meu.


Eles são muito parecidos, mas em alguns relevantes detalhes o novo é melhor.


Tamanha semelhança não poderia gerar diferença para os menos entusiasmados por tecnologia, não é o meu caso.


Na noite do dia que o celular novo chegou lá em casa, o meu mais velho se mostrou indiferente, como se a presença do novo não fosse alterar sua importância.


Os problemas começaram de maneira bem simples, com pequenas coisas.

- Eduardo. Você não vai colocar o alarme hoje não ?
- Então... coloquei no novo.
- No novo ? ... por quê ?
- Ah. Pra ver como é.
- ...
- ...
- É igual.
- É. Parece que sim.
- Então. Deixa o alarme comigo. Eu sei que você gosta de acordar ao som de "Soul to Squeeze".
- Pô. Então. Queria falar com você sobre isso mesmo. Cansei de acordar com essa música. Vai ver tá na hora de mudar.
- Qual música você colocou no novo ?
- Nenhuma. Botei tipo barulho de despertador mesmo.
- Há.
- Que foi.
- Escroto..
- Mas eu ainda vou botar umas músicas nele, depois eu vejo isso.
- Sei...

Minha irmã chegou em casa. Fui mostrar pra ela o celular novo, comentei que entre outras muitas coisas ele tem rádio e pan.

Quando voltei pro quarto, o celular mal esperou minha acomodação para comentar.

- Eu também tenho essa função.
- Eu sei. Mas você acredita que eu tinha até esquecido ?
- Esqueceu ?
- É. Sei lá porque.
- ... mas então. Bora jogar uns joguinhos agora ? Tipo um pokerzinho ?
- Ah, cara. Já enjoei de quase todos os seus jogos.
- Pô.... você prometeu que ia instalar uns jogos novos em mim.
- Pois é. Falta tempo, cara.

No dia seguinte, instalei uns jogos novos no celular novo.

É difícil conter a empolgação com um brinquedo novo. Foi exatamente assim com o velho, você acaba enchendo ele de jogos, aplicativos. Aquela empolgação normal do 1o. mês.

Enquanto instalava, deixei o meu pessoal na mochila. Pra ele não ver.

Mas não adiantou muito.

De manhã indo pro trabalho me ligam no telefone pessoal e depois da chamada ele aproveitou pra abordar o assunto.

- Eu vi que você instalou uns jogos novos no outro celular.
- É.... foi.
- ...
- ...

(Awkward)

- Maneros ?
- Ah, não consegui ver direito. Mas parece que tem uns maneros.
- Hum...
- Lembra que eu te falei daquele jogo do Samurai Jack ? Instalei!
- Quê ?
- Instalei!
- Você instalou no novo ?
- É...
- ... Eduardo...

O celular suspira longamente, antes de retomar seu raciocínio.

- Você tá falando desse jogo pra mim desde o ano passado...
- É... pô, finalmente achei né... que foi ?
- Não. Nada...

O celular suspira longamente de novo e escorrega pra trás da mochila pensativo.

Outros incidentes iam acontecendo, com meu celular velho sempre me observando de longe sem comentar nada. Mas às vezes quando eu mostrava as coisas que o celular novo fazia pra outras pessoas eu acabava escutando ele tecendo comentários bem baixinho.

- Grandes merdas...

Uma semana se passa.

O meu celular pessoal não fala mais comigo.

Procurei por ele na minha mochila mas não o encontrei.

No lugar dele, encontrei uma carta.

"Eis o mundo real. O tempo passa e quem realmente esteve do seu lado e passou por tantas coisas junto... você parece não lembrar, Eduardo, mas eu dormi e acordei com você todos esses dias nos últimos 2 anos... andei com você por tantas cidades, países... tirando fotos pra você, acessando a internet pra você, checando seus emails, jogando horas a fio, atendendo suas chamadas, passando seus recados... eu fiz tanto por você e você fez tão pouco por mim. Quer saber ? Fui atrás de um dono que me dê carinho e atenção da maneira que eu mereço. Sou um celular FODA e assim mereço ser tratado. Adeus Eduardo. Um abraço, Sony"

Viro pro meu celular novo com uma cara chateada e ele, que havia se mantindo em silêncio por todo esse tempo, fez sua primeira observação.

- Seu cu.

Já suspeitava que esse celular novo fosse meio escroto, babaca.

Sinto falta do meu celular. Ele era meu amigo.

Foi quando um dia aconteceu.

Fui demitido da empresa e fiquei sem celular nenhum.

Uma semana se passou e nada de notícias do meu celular velho, foi quando acabei tirando do fundo da gaveta aquele modelo Nokia tijolão que eu não ligava há mais de 5 anos.

- REBORN! Ah mulek! Sabia que um dia você ia sentir a minha falta.
- Ei. É temporário. Vou comprar um novo esse mês ainda.
- Você ? Eduardo Valverde ? Pão duro do jeito que é ? Hahaha! Já tô vendo que a gente vai ficar um bom tempo junto.
- Veremos.
- E aí. Continua escutando Radiohead ?
- Caralho. 5 anos atrás, Nokia. 5 anos!
- Ok, ok, foi mal. Tá afim de jogar o jogo da cobrinha ?

Nesse momento entra pela porta o meu celular velho carregando uma malinha.

Nisso o Nokia tijolão protesta:

- Ah não! Não, não, não! Estamos juntos agora! Fala pra ele, Eduardo. Fala!
- Oi, Eduardo...
- Oi, celular...
- ...
- ...

O Nokia fica olhando pra cara de nós dois e, pra interromper o silêncio constrangedor, solta cantando um comentário com voz fininha...

- Awkwaaard...

Discutimos a relação.

Chegamos a um acordo.

Hoje estamos bem, eu e meu celular.

De vez em quando ele me alfineta, nem passar em frente a uma loja de celular mais eu posso.

Nesse meio tempo, o Nokia ficou ligado. Fui colocar ele de volta na gaveta.

- Lá vou eu de novo. Quer saber, Eduardo ? Eu fui seu primeiro celular. Você não vai me esquecer tão fácil assim.
- Cara. Você é meu celular reserva. Eu só não te vendo porque você não vale nem 1 real.
- Ó, ó. Tá vendo ? (olhando para o meu celular). É assim! Esse é o seu futuro! Assim que as coisas são! Vai se acostumando!
- Cala a boca.
- Sony! Você sabe o que estou sentindo! Me ajuda aqui! Esse Eduardo é um filho da puuuuu...... (desligado)

Voltei pro computador e o meu celular veio falar comigo.

- Não gostei da maneira que você tratou o Nokia.
- Ah, Sony, relaxa, ele é só um celular velho.
- Celular velho...

Nesse momento, o Sony me encarou de uma maneira que nunca tinha me encarado antes.

Ficamos em silêncio.

No dia seguinte, não encontro o Sony em lugar nenhum. Fui atrás do Nokia e ele também não estava na gaveta. No lugar, encontrei outra carta.

"Eis a verdade, Eduardo: Eu e o Nokia fugimos juntos. Estamos apaixonados. Foi aquela paixão intensa, surgida de um profundo entendimento entre nós dois. Coisas que você nunca vai compreender. Pretendemos casar e ter filhos. Nosso ódio em comum por você faz o nosso amor mais forte. Nunca mais queremos te ver. Um abraço, Sony e Nokia."

Fiquei sabendo depois que os meus dois celulares tiveram filhinhos.

Esses filhinhos hoje são chamados de "super-celulares" da nova geração, resultado da fusão entre a Nokia e a Sony-Ericsson, que hoje tem os celulares mais fodas do mundo.

Eu até queria comprar um, mas os pais deles não deixam...

Hoje todo mundo tem um Nokia-Sony-Ericsson, menos eu.

Por causa disso não tenho amigos.

E uso celular SAMSUNG.

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