sábado

Professor Nasser



Nasser era um professor pedófilo e epilético.

Sorriso de mulher. Olhar de drácula. Roupas de jornalista. Óculos retrô.

Gostava de interromper as aulas para falar de suas férias e de seus remédios.

Alegava que o mundo acabaria se resumindo a turismo sexual e Disney World. Apostava sua casa nisso.

Gostava de se inclinar na mesa dos alunos e expôr seu bafo de café e cigarro junto com seus dentes amarelos.

Sapos coloridos e cobras venenosas faziam parte de sua vida. Tinha uma sala cheia desses bichos em casa. Além de uma salamandra, a qual ele chamava de "Bebel".

- Aquela mesma da novela.

Alimentava-os somente com hamsters suíços ou franceses.

- Minhas cobras não comem outra coisa.

Vinho e azeite de oliva. Dizia que gostava de Barcelona.

- Os espanhóis têm uma excelente culinária.

Financial Times e The Economist. Lia até tablóides.

- Quero dar aula na Europa. Vou ter um escritório no Castelo de CARAS.

Pinta cinza na testa. Pêlos no nariz.

- Conheço um antiquário em Amsterdam.

Fogos da Revolução Francesa. Pirotecnia como arte.

- O Hino Nacional é apoteótico.

Poliglota. Gostava de ser bem atendido em lojas.

- Vou usar meu cartão de crédito.

Livre associação. Referências da obra de Sun Tzu.

- Melhor que Nostradamus, “meu irmããããooo...”

Leituras densas. Livros traduzidos para o português.

- Chineses usam muitas metáforas com os elementos da natureza.

Melodias francesas. Literatura Italiana.

- Se Maquiavel fosse vivo, ele seria meu melhor amigo.

Mas bem que ele parecia um pouco com o Maquiavel, fisicamente. Aquela cara fina e aquele olhar de bailarino boiola. Realmente eles seriam bons amigos.

Dormiriam juntos na casa dele.

Tomariam chá de flores silvestres no café da manhã, torradas com geléia de damasco e ovos pochê. Passariam a manhã lendo livros do século XVI e almoçariam crepe de banana e canela com suco de pêssego.

Iriam ver um filme ucraniano no Estação Botafogo e lanchariam um croissant com capuccino.

Iriam pra casa escutar Madame Butterfly, de Puccini, chorariam juntos.

Nasser apresentaria a Maquiavel as 9 Bachianas de Villa-Lobos. Fariam comentários destrutivos.

Jantariam escargot com vinho branco.

Conversariam sobre economia, política, relações internacionais e a banalização da cultura. Prato cheio.

- Tenho orgasmos ao conversar com você.

Mas que barato.


Iriam pra casa explorar sensações.

Um dia Nasser acordaria e Maquiavel não estaria ali ao seu lado.

Um recado pousaria sobre seu travesseiro dizendo:

“Nasser,
Foi muito bom passar este tempo com você. Mas devo alertá-lo que você anda lendo clássicos demais. Pare de inventar amigos imaginários como eu e passe a sair com gente de verdade. Um grande beijo do seu lau-lau.
Adeus.
Nicolau Maquiavel”

Nasser foi se tratar.

O psiquiatra recomendou um tratamento de choque.

Muita MTV, Malhação, DJ Marlboro, Latino. Grapette, churrasquinho de gato e funk. Cerveja Itaipava, Faustão e Revista Contigo.

Seus olhos se tornaram menos esbugalhados. Sua fala mais tranqüila. Seu hálito fresco. Sua respiração menos ofegante.

Hoje o professor é um cara normal. Porém, muito menos interessante, ou divertido.

- À vista tem desconto?
- Não.
- Tudo bem. Vou levar assim mesmo. É pra presente, por favor.
- Laço azul ou vermelho ?
- Tanto faz, porra. E anda logo com essa merda aí que já ta na hora da minha novela.

Já não era mais o mesmo, o professor Nasser.

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