segunda-feira

Cemitério



Vocês que são meus amigos, e por isso lêem meu blog, porque eu peço, sabem que eu moro em Botafogo perto de um cemitério, o São João Batista.

Pois vou contar uma história que aconteceu comigo essa semana.

Estava na internet sem fazer nada, como sempre, até altas horas da madrugada, como sempre, precisando acordar cedo pra trabalhar no dia seguinte, como sempre.

Aliás, isso vai acabar, faz parte das minhas resoluções de 2008, mas vou falar sobre isso mais pra frente.

Quando desliguei o media player, pude ouvir, longe mas dava pra ouvir. Eram gritos de socorro, me tirem daqui, berros e urros, essas coisas normais que eu escuto todas as vezes que fecho os olhos.

Mas dessa vez eu sabia que não eram dentro da minha cabeça, mas sim na rua.

Desci correndo descalço e sem camisa, só com a minha cueca samba-canção do Homer Simpson.

Chegando perto do cemitério, os gritos ficavam cada vez mais claros, até que encontrei o túmulo de onde vinham os gritos de socorro.

Peguei minha pá e comecei a cavar loucamente até retirar o caixão com os berros.

Abri.

Lá dentro estava um homem mediano, nordestino, bigode de porteiro e camisa do Bahia. Ele estava sufocando.

- Me enterraram vivo!

Ele disse que não se lembrava de nada, apenas de ter tomado algumas a mais na noite de Natal.

Disse que seu nome era Jeilson e que trabalhava como faxineiro no Supermercado Princesa de Realengo.

Jeilson me parecia confuso e desorientado, trouxe ele aqui pra casa pra tomar um banho e descansar.

Ele comeu um sanduíche de mortadela em 3 mordidas e depois se atirou no sofá a dormir. Estranhei. Pensei que alguém que quase dormiu pra sempre não teria tanta pressa em fechar os olhos novamente.

Suspeito. Muito suspeito.

Quando acordei, encontrei Jeilson na cozinha preparando almoço.

Muito animado, ligou o som numa rádio de samba e estava fazendo uma zona na cozinha.

- Ô Jeilson, você não tem família, casa pra ir não ?
- Rapaz. Eu tenho um puxadinho na Vila Cruzeiro, mas veja bem. Tu teria pressa de rever as pessoas que te enterraram vivo ?
- Acho que não.
- Experimenta isso aqui. Eu faço a melhor buchada de bode de Juazeiro.

Depois do almoço, Jeilson foi pro sofá, esticou as pernas na mesa e ligou a TV no futebol.

- Gosto de futebol.

Abriu a minha cerveja e ficou lá, com uma mão na cerveja e a outra em cima da barriga saliente.

Deixei pra lá. O cara acabou de ser enterrado vivo. Deixa ele quieto um pouco.

4 dias se passaram e Jeilson não sai mais aqui de casa. Hoje me perguntou qual é a boa do reveillon.

Eú já mandei ele ir embora algumas vezes mas ele finge que não escuta e começa a assobiar músicas do Roberto Carlos.

Enchi o saco desse Joilson. Quer saber, vou me livrar dele.

Esperei ele pegar no sono e botei ele de volta no caixão.

Enterrei Jeilson vivo no mesmo lugar.

Foi a melhor coisa que fiz. Agora minha casa não cheira mais a cigarro de palha.

Passando pelo cemitério no dia seguinte, vejo um homem com uma camisa do Bahia saindo pelo portão, sendo amparado por uma moça.

Paro o carro e pergunto para o zelador do cemitério o que está acontecendo.

- Ih rapaz. Esse aí é o Jeilson. Ele leva a vida fazendo isso aí. Sempre tem um otário que vem aqui e desenterra ele.

Tu-run-dum. Tsss.

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